OPINIÃO

A cor da estatística


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Lamentando retomo o assunto com tão seleto grupo de pessoas adoráveis que me acompanha por aqui: a persistente e devastadora violência contra a nossa sociedade. Impressiona constatar que, quanto mais o tema é debatido, mais os crimes parecem se multiplicar. Estaríamos diante de uma ousadia alimentada pela certeza da impunidade? É provável, contudo, independentemente da causa primordial, o fato é que algo precisa ser feito com extrema urgência.

Nesta difícil caminhada de conscientização, dados recentes nos desferem um forte soco no estômago: O Atlas da Violência realizado pelo IPEA e Fórum Brasileiro de Segurança, divulgado nesta semana (26/5/26), aponta uma estatística de guerra confirmando que 75 jovens são vítimas de morte violência por dia no Brasil. O dado ganha contornos ainda mais assustadores e revoltantes quando recortado pelo fator racial apontando e confirmando que as pessoas negras vitimadas são quase três vezes maior do que as não negras.

Qual justificativa para esse resultado? A única diferença real entre esses seres humanos é a cor da pele. Esse abismo estatístico, por si só, aniquila qualquer tentativa de reduzir tais índices e o debate ao rótulo de “mimimi” lembrando que estamos falando do direito à vida.

Nesse sentido a população negra permanece na exclusão sistemática nos mais diversos ramos da sociedade constatando-se que, no quesito violência, ela é tragicamente a mais “incluída”, além de estranha e injustificavelmente invisível na construção e entrega de políticas públicas e proteção estatal.

Como disse acima, além de assustador é revoltante pois que a única diferença entre esses seres humanos é apenas a cor da pele que, por si só, afasta qualquer alusão a maldosa ideia de que se trata de “mimimi”.

Nesse contexto, trago a lembrança ou atenção a manifestação do Jurista Dr. Hedio Silva Junior que, compulsando a Revista Super Interessante, na matéria tratando do reconhecimento pela ONU da escravidão como maior crime contra a humanidade, absurdamente nessa matéria foram catalogadas o Holocausto Judeu, o genocídio em Ruanda, o massacre dos Ciganos na Romenia, Indígenas e absurda e estranhamente a escravidão africana não aparece!

Diante disso, o questionamento é inevitável: corpos negros ainda são lidos por alguns como “coisas” ou seres “não humanos” para não integrarem os índices de crimes contra a humanidade?

O tratamento odioso dispensado às pessoas negras não encontra justificativa plausível e, se não bastasse, impede evolução e desenvolvimento social na medida em que as desigualdades reduzirão além de proporcionar realização de procedimentos onde todas as pessoas crescem independente da origem e na exata aparição de personagens ocupando postos de mando, direção, alto valor, o que, no mais das vezes, não acontece justamente para impor a ideia de que tais lugares não foram criados e mantidos por e para essas pessoas. Tal comportamento impede a evolução geral.

Pensemos : Engessemos metade da população e peçamos que ande. No mais se arrastará... Quebremos esse gesso ...  Ninguém segura o nosso querido Brasil.

Eginaldo Honório é advogado, Comendador ... e atual Presidente da Comissão da Igualdade Racial da OAB/SP – Jundiaí(SP)

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