OPINIÃO

A paixão de GH


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Romance de Clarice Lispector, “A paixão segundo GH” é um desses monumentos que a literatura ergue vez por outra. Lançado em 1964, o livro suscita debates acalorados há décadas. Nos dias que correm, com dona Clarice reconhecida não só em língua portuguesa, mas traduzida mundo afora, a obra desperta interesse crescente e dela nascem mais e mais análises críticas, ensaios e opiniões.

Primeiro romance de Clarice narrado em primeira pessoa, o livro tem um fio de enredo. Sabe-se que GH (cujo nome inteiro não aparece, somente essas iniciais) tem grana, mora em apartamento amplo na cobertura de um edifício numa grande cidade brasileira. Escultora amadora, GH menciona sua vida social de badalações e coquetéis. Mas nada disso aparece. O livro concentra-se no relato da personagem dentro de seu apartamento, depois de uma manhã preguiçosa em que, sozinha no grande espaço, resolve “fazer uma arrumação na casa”. A empregada doméstica, Janair, após seis meses trabalhando e morando no apê, demite-se na véspera do relato da narradora. GH decide começar a faxina pelo quarto de Janair. Espera encontrar um depósito imundo de cacarecos e tralhas. Mas, para sua surpresa, depara-se com um quarto limpo e arrumado, sem bagunça nem sujeira. E aí começam as elocubrações da protagonista. Ela tenta, a custo, lembrar como era o rosto de Janair, que a memória teima em esconder. Recorda-se, depois, dos “traços de rainha” da empregada.

Na parede branca atrás da porta, espanta-se com um enorme desenho, feito a carvão, das silhuetas de um homem, de uma mulher e de um cachorro. Desenho riscado por Janair, como um recado para a antiga patroa. GH abre a porta do pequeno guarda-roupa e dele emerge uma barata. Ato contínuo, a narradora tenta fechar a porta, e deixa presa no vão o inseto repugnante. E daí por diante o leitor vai encarar as indagações, perplexidades, reflexões e relatos de quem pensa nos porquês da própria existência. A viagem não para. Um capítulo liga-se ao outro pelo engenhoso artifício da repetição de frases, em um moto-contínuo de perguntas, observações e pensamentos. Diante o inseto abjeto, desprezado e combatido há séculos, permanece GH a indagar e a espantar-se com as próprias reflexões.

Fica difícil resumir o romance. Mas percebe-se como ele perturba, como abala convicções enraizadas. Diz a narradora: “Eu chegara ao nada, e o nada era vivo e úmido”. A dificuldade em acompanhar a prosa de Clarice Lispector não está na criação de um vocabulário recheado de neologismos ou palavreado raro. Pelo contrário. Sua prosa é límpida. O inusitado está nas associações estranhas (“que os móveis da casa retornavam arrependidos”, “a verde água do ar”...), no exercício da busca por uma linguagem que traduza as inquietações mais escondidas. Leitores somos estimulados a procurar o não dito, o insinuado. Lispector já dissera antes: “Se há que escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas”. E haja entrelinhas e subentendidos nessa prosa de dona Clarice.

Fernando Bandini é professor de Literatura

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