OPINIÃO

O Fio Invisível: A Amizade na Era da Hiperconexão


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Caro leitor, dizem que os amigos são a família que nos é permitido escolher. Se a afirmação soa como um clichê de cartão de felicitações, a prática cotidiana revela que ela é, na verdade, uma estratégia de sobrevivência emocional. Em um mundo onde o "seguir" substituiu o "acompanhar", e o "curtir" tomou o lugar do compartilhar o silêncio", a amizade verdadeira tornou-se um ato de resistência.

Diferente dos laços de sangue, que nos são impostos pela biologia e pela herança, a amizade nasce de um contrato invisível de liberdade. Não há contrato assinado, não há dever legal. O que nos prende a um amigo é a vontade mansa de estar perto, a afinidade que ignora o tempo e a confiança de que, naquele porto, o julgamento não lança âncora.

Aristóteles, há milênios, já dividia a amizade em três categorias: a por utilidade, a por prazer e a amizade perfeita.

Enquanto as duas primeiras são efêmeras — baseadas no que o outro pode nos oferecer ou na diversão momentânea —, a terceira é o que sustenta a alma. É aquela onde torcemos pelo bem do outro simplesmente por ele ser quem é.

Hoje, vivemos o desafio da distância digital. Temos centenas de "amigos" nas redes sociais, mas poucos a quem recorrer quando o teto parece cair. A tecnologia, ironicamente, facilitou o contato e dificultou a conexão. Mandar um emoji de coração é fácil; atravessar a cidade para ouvir um desabafo em uma terça-feira chuvosa exige uma disposição que o algoritmo não ensina.

A amizade adulta é, acima de tudo, feita de intervalos. Entre o trabalho, os boletos e as obrigações familiares, os encontros minguam. No entanto, a marca de uma conexão real é a capacidade de retomar a conversa exatamente de onde ela parou, mesmo que meses tenham se passado. É a ausência que não gera cobrança, mas que valoriza a presença.

Além disso, ser amigo é exercer o perdão em doses homeopáticas. É entender que o outro também falha, que ele também se perde no próprio caos e que, às vezes, o maior gesto de carinho é o espaço. Amigo não é quem aponta o erro com prazer, mas quem estende a mão para ajudar no recomeço.

Caro leitor, em suma, cultivar uma amizade é como cuidar de um jardim particular em meio ao asfalto urbano. Exige rega, paciência e a aceitação das estações. No final do dia, quando as luzes das telas se apagam e o barulho do mundo silencia, o que resta é o conforto de saber que não estamos sós na multidão. Ter um amigo é possuir um espelho que nos devolve uma versão melhor — e mais acolhida — de nós mesmos. Pense nisso.

Micéia Lima Izidoro, Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional, Neuropsicopedagoga Clínica, pós-graduada em ABA e estudante de  Neuropsicanálise

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