OPINIÃO

A onipresença da mentira


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Caro leitor, vivemos mergulhados em uma contradição curiosa. Desde o jardim de infância, somos ensinados que a verdade é o valor supremo, o pilar que sustenta as relações e a própria civilização. No entanto, se fôssemos subitamente condenados a dizer apenas a verdade absoluta por 24 horas, é provável que, ao pôr do sol, estivéssemos esempregados, solteiros e sem amigos.

A mentira é, talvez, a ferramenta mais sofisticada da evolução humana. Enquanto outros animais usam garras ou camuflagem física, o homo sapiens desenvolveu a capacidade de criar realidades paralelas através da linguagem. Mentimos para sobreviver, para evitar conflitos desnecessários e, principalmente, para manter a coesão social. É o que os sociólogos chamam de "mentiras brancas". Aquele elogio ao jantar insosso do anfitrião ou o "está tudo bem" dito enquanto o mundo desaba internamente.

O problema surge quando a mentira deixa de ser o lubrificante das engrenagens sociais e passa a ser o motor da história. Na era da informação (ou seria da desinformação?),  a mentira foi industrializada. Não estamos mais falando do "pulo do peixe" do pescador, mas de algoritmos desenhados para validar nossas próprias ilusões.

Antigamente, a mentira tinha pernas curtas. Hoje, ela tem conexões de fibra ótica e viaja o mundo antes mesmo de a verdade calçar os sapatos. O perigo não é apenas acreditar em uma falsidade, mas o cinismo corrosivo que vem depois: quando deixamos de acreditar que a verdade sequer existe.

Caro leitor, existe também o custo individual. Mentir é um trabalho exaustivo para o cérebro. Manter uma farsa exige um esforço cognitivo imenso. É preciso lembrar o que foi dito, para quem, e garantir que a versão B nunca colida com a realidade A. No fim das contas, a mentira funciona como um labirinto de vidro: parece oferecer uma saída rápida e transparente para os problemas, mas acaba nos cercando em reflexos distorcidos de nós mesmos.

Talvez a grande sabedoria não esteja na busca utópica por uma honestidade brutal e sem filtros — que beira a crueldade —, mas na coragem de encarar as nossas próprias mentiras de estimação. Afinal, a mentira mais perigosa de todas nunca é aquela que contamos aos outros, mas aquela que cultivamos para convencer a nós mesmos de que estamos no controle. Pense nisso .

Micéia Lima Izidoro, Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional, Neuropsicopedagoga Clínica, pós-graduada em ABA e estudante de  Neuropsicanálise

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