OPINIÃO

Indústria paulista na igualdade de gênero


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Neste Brasil que, em 2025, quebrou o triste recorde histórico de feminicídio, com 1.470 casos registrados pelo Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), o Dia Internacional da Mulher, 8 de março, não é motivo de comemoração, mas de alerta, mobilização cívica e muito empenho do setor público e da sociedade no enfrentamento do problema. Acredito que uma das frentes cruciais nessa jornada seja o empoderamento por meio do trabalho.

Nesse aspecto, há tendências promissoras. Estudo pouco difundido da Fundação Seade, com base na Rais do Ministério do Trabalho, mostra que o crescimento do emprego formal no Estado de São Paulo, em 2024, teve protagonismo feminino. Em dezembro daquele ano, o setor privado paulista alcançou 14,1 milhões de trabalhadores com carteira assinada. Foram 474 mil novos postos em relação a dezembro de 2023, um avanço de 3,5%. Um detalhe expressivo é que 275 mil das vagas foram ocupadas por mulheres, um crescimento de 4,7%. Entre os homens, o aumento foi de 199 mil postos, ou 2,6%.

As trabalhadoras passaram a representar 43,5% dos vínculos formais no setor privado paulista. Ainda são minoria frente aos 56,5% dos homens, mas avançam em ritmo mais acelerado. Esse movimento não acontece por acaso. É resultado de mudanças culturais, pressão social por equidade, políticas corporativas mais conscientes e, sobretudo, da persistência feminina em ocupar espaços historicamente negados.

Dados do Observatório Nacional da Indústria, da CNI, mostram que o setor, tradicionalmente marcado por predominância masculina, também tem sido palco e indutor dessa transformação. Os números mais recentes apontam que, em pouco mais de uma década, entre 2008 e 2021, a participação feminina em cargos de gestão industrial saltou de 24% para 31,8%. Embora ainda inferior à média de outros ramos, o avanço na área foi três vezes maior no período: 32,5%, contra 9,8% nos demais segmentos da economia.

Ademais, seis em cada dez indústrias brasileiras contam com programas ou políticas de promoção da igualdade de gênero. Todos ganham com isso, pois estudos nacionais e estrangeiros mostram que empresas com maior diversidade em seus quadros decisórios tendem a inovar mais, decidir melhor e performar acima da média. A maior vitoriosa, porém, é a sociedade.

Iniciativas concretas ajudam a acelerar esse processo no mercado de trabalho paulista. Um exemplo é o programa Elas na Indústria, conduzido pela Fiesp, com forte participação das diretorias regionais do Ciesp, que  já capacitou 1.598 mulheres. São seis turmas formadas, a mais recente em dezembro de 2025. As profissionais são preparadas para assumir posições estratégicas, liderar equipes e influenciar decisões.

Além das iniciativas em âmbito estadual, cabe destacar o protagonismo das diretorias regionais do Ciesp na formação e capacitação de mulheres para a indústria. Por meio dos Conselhos Femininos das distintas unidades, em parceria direta com as empresas associadas, realizam-se programas, com edições nos últimos dois anos, voltados à qualificação técnica para atuação na operação industrial. Essas iniciativas são estruturadas em linha com as demandas reais do setor produtivo local, com foco na empregabilidade e ampliação da participação feminina em funções tradicionalmente ocupadas de modo majoritário por homens.

O modelo é colaborativo: as empresas contribuem na definição dos perfis e competências necessárias e a formação é direcionada para atender às suas demandas. Essas ações reforçam o compromisso institucional com a promoção da equidade de oportunidades, ao mesmo tempo em que contribuem para suprir necessidades reais de mão de obra qualificada no setor industrial

A despeito da importância dessas ações da indústria paulista, não devemos perder a consciência de que, em nosso país, ampliar o acesso feminino ao mercado de trabalho é apenas parte da agenda. É preciso avançar ainda mais na isonomia salarial, na ocupação de cargos de liderança e na eliminação de todo o preconceito. Estamos trabalhando com firmeza no âmbito desses propósitos. Mais do que um imperativo econômico, trata-se de uma exigência civilizatória.

O emprego formal é instrumento de autonomia, que significa maior capacidade de decisão, menor vulnerabilidade e redução da exposição à violência. Em um país que ainda convive com índices alarmantes de feminicídio, discriminação e agressões físicas e morais contra mulheres, fortalecer sua presença no mercado de trabalho é também uma política de proteção social. É um poderoso meio de promover a igualdade de gênero e combater a truculência, prioridades que o Brasil não tem o direito de negligenciar.

Rafael Cervone é o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp)

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