Caro leitor, vivemos em uma era de conexões instantâneas, mas, paradoxalmente, nunca nos sentimos tão isolados. Nos corredores apressados do cotidiano, entre uma notificação de celular e outra, um fenômeno silencioso e devastador continua a ceifar vidas: o suicídio. Falar sobre o tema em uma coluna de jornal ainda é um desafio, cercado por tabus ancestrais e o medo de que a menção ao assunto possa servir de gatilho.
No entanto, o silêncio não protege. Pelo contrário, ele isola quem sofre em um abismo de incompreensão. O suicídio não é uma escolha deliberada pela morte, mas sim um desejo desesperado de interromper uma dor que se tornou insuportável. É o desfecho trágico de uma complexa interação de fatores biológicos, genéticos, psicológicos e sociais.
Quando uma pessoa chega ao limite, ela não quer acabar com a vida, mas sim com o sofrimento que a consome. Por isso, a primeira barreira que precisamos derrubar é a do julgamento. Frases como "é falta de fé", "é para chamar atenção" ou "é covardia" são pregos adicionais no caixão de quem ainda luta para respirar.
Bem, prevenir o suicídio começa na capacidade de olhar para o lado com uma empatia genuína. Muitas vezes, os sinais estão lá, ou seja, o isolamento súbito, a perda de interesse em atividades antes prazerosas, frases de despedida ou uma desesperança profunda no futuro. Acolher esses sinais sem interrupções críticas é o primeiro passo para a cura. Ouvir alguém dizer que "não aguenta mais" exige coragem de quem escuta para não mudar de assunto por desconforto.
A ciência e a psicologia são claras. A maioria dos casos de suicídio está ligada a transtornos mentais, como a depressão e a ansiedade, que são tratáveis. Negar o acesso ao tratamento ou estigmatizar quem busca ajuda psiquiátrica é negar o direito à sobrevivência. Precisamos falar sobre saúde mental com a mesma naturalidade com que falamos de uma fratura exposta ou de uma gripe persistente.
Caro leitor, a prevenção não é tarefa exclusiva de médicos e psicólogos. É um pacto social. Envolve políticas públicas que garantam assistência digna, mas também envolvem a vizinhança, a escola e o ambiente de trabalho. Criar redes de apoio sólidas e ambientes onde a vulnerabilidade não seja sinônimo de fraqueza é o que realmente salva vidas.
Se você leitor, sente que o peso do mundo está esmagador, saiba que não precisa carregá-lo sozinho. Existe uma saída que não passa pelo fim da sua história. O suporte profissional e institucional, como o oferecido pelo CVV (Centro de Valorização da Vida) através do número 188, está disponível 24 horas por dia, de forma gratuita e sigilosa.
Que possamos substituir o tabu pela informação e o estigma pelo abraço. Que a nossa coluna de hoje não seja apenas um texto, mas um lembrete de que toda vida carrega em si uma possibilidade infinita de recomeço. Falar é a melhor solução, e ouvir é o maior ato de humanidade que podemos oferecer. Pense nisso.
Micéia Lima Izidoro, Pedagoga, Psicopedagoga Clínica e Institucional, Neuropsicopedagoga Clínica, pós-graduada em ABA e estudante de Neuropsicanálise.