OPINIÃO

CARNAVAL 2026


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Diz a lenda que o Brasil só começa a caminhar a partir do Carnaval. Hoje 20/2/26, despertamos mais uma vez sob essa máxima e, ao olharmos pelo retrovisor desta última década, a pergunta que se impõe não é se o País começou a andar, mas sim em que direção, em especial no que tange a dignidade da pessoa humana, o respeito às raízes, o avanço assustador da violência?

Sim, chegamos às promessas de ano novo – aqueles votos de paz, saúde, felicidade, paz, respeito, etc.-  trocados entre as ceias e abraços – parecem finalmente ganhar corpo nas ruas. O carnaval seria a concretização da esperança estampada nos rostos de quem encontra na folia um refúgio.

O Brasil manifesta sua folia em mil cores com afoxé, frevo, maracatu, bumba meu boi, trios elétricos, escolas de samba.

Cada região manifesta e cultiva a seu modo e tradição merecedora do mais profundo respeito, aproveitando e transformando a cultura em potente motor econômico gerando divisas ao movimentar hotelaria, gastronomia,absorção de mão de obra nas oficinas de fantasias, barracões, quadras das escolas de samba.

É preciso olhar também para além do brilho das lantejoulas e paetês, vez que atrás do desfile existe um exército de profissionais que trabalhando o ano inteiro na invisibilidade. São engenheiros, arquitetos pesquisadores, figurinistas, serralheiros, escultores, eletricistas, técnicos em efeitos visuais e especiais, intérpretes de samba - lembrando aqui do saudoso Jamelão que repudiava o termo “puxador”, pois dizia ele que puxador puxa carroça “o artista interpreta a alma da escola”.

O paradoxo também reside na questão racial, na medida em que o carnaval explora, por exemplo, a beleza negra com notoriedade inigualável, Passistas, Mestres-sala, Portas-bandeira, Rainhas de bateria elevados a status de realeza. Exibe-se o vigor, a melanina, a cultura de matriz africana com entusiasmo que beira o fetiche, chegando muita vez, ao deplorável limite do “turismo sexual”

Pergunta que fica no ar e em todos os anos: Onde estão essas pessoas no cotidiano?
Por que esses personagens, tão celebrados em fevereiro de cada ano, simplesmente desaparecem das manchetes, dos cargos de chefia ou não; das revistas de moda, das redes sociais, das emissoras de televisão entre outros lugares e postos relevantes, tanto na iniciativa privada quanto a pública nos demais meses?

Reparem que, como dito acima, a beleza negra ganha notoriedade inigualável servindo, inclusive, de “turismo sexual”, cujos personagens não são vistos no cotidiano, quer na rede social, quer nas manchetes, revistas, jornais, emissoras de televisão e etc., mas quando chega o carnaval essas pessoas são lembradas com muita força, critério e entusiasmo pelas agremiações e exibidas por toda a rede de comunicação.

O carnaval mostra que a cultura negra e educação não é um mero ornamento ou produto sazonal para atrair divisas e apresentar talentos em todas as atividades da vida humana, como também não é ameaça a quem quer que seja e em qualquer lugar.

Retomando temos a infelicidade de enfrentar a hipocrisia que se fantasia de “costume”. É inadmissível que, em pleno 2016, ainda tenhamos que explicar que a mitologia africana é tão legítima quanto a greco-romana. Por que o arquétipo de Hermes - o mensageiro grego - é aceito com naturalidade nos bancos escolares, enquanto o de Exu, seu equivalente em comunicação e movimento, ainda desperte obstáculos fundamentadas no medo e na desinformação.

A resposta - venho apontando há anos - fixa-se na educação regular, mais especificamente a partir da implementação da lei que obriga o estudo da história da África e Afro-brasileira e Indígena, a ser tratada não como sugestão ou recomendação, porém, pilar obrigatório da formação educacional permanente e continuada. Enquanto isso não ocorre permaneceremos correndo elevado e estarrecedor risco de policiais invadirem escolas, armados com metralhadora, por causa de desenho elaborado por crianças e entrega de flores com singela, pureza e ausência absoluta de qualquer sentimento ou ato maldoso, provocados por professora radical, fanática, agressiva e totalmente despreparada.

Eginaldo Honório é advogado, doutor Honoris Causa e conselheiro estadual da OAB/SP

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