OPINIÃO

2026 e as democracias em crise


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O ano de 2026 mal começou e o mundo já foi lançado, mais uma vez, a um estado de inquietação profunda. A chamada maior democracia do planeta abriu o ano com uma ação militar contra a Venezuela, reacendendo antigas feridas na América Latina e levantando uma pergunta incômoda: até onde vai, de fato, o compromisso das democracias com os valores que dizem defender?

Ao mesmo tempo, as ruas do Irã voltaram a se encher de vozes e coragem, sufocadas por uma repressão dura e violenta, enquanto a guerra na Ucrânia segue como uma chaga aberta, lembrando diariamente que a paz prometida pelo mundo moderno continua distante.

Esses acontecimentos, tão distintos entre si, estão unidos por um mesmo fio invisível: a erosão da confiança. Confiança nas instituições, nos governos, nos discursos e, sobretudo, na própria democracia. Nunca se falou tanto em democracia, mas raramente ela pareceu tão distante da vida concreta das pessoas comuns.

A democracia foi vendida sempre como promessa de participação, liberdade e dignidade. Um sistema em que o povo teria voz, vez e poder de decisão. No entanto, para milhões de cidadãos ao redor do mundo, essa promessa foi se transformando em frustração. Vota-se, mas não se sente representado. Escolhem-se governantes, mas as desigualdades persistem (ou se aprofundam). Há uma incapacidade perene de responder às necessidades mais básicas da população.

Nos países capitalistas e democráticos, a contradição se torna ainda mais evidente. Há liberdade de expressão, mas falta escuta real. Há crescimento econômico, mas falta justiça social. Há inovação tecnológica, mas cresce a precarização do trabalho e o sentimento de insegurança permanente. Enquanto indicadores macroeconômicos são celebrados, a vida cotidiana segue marcada por medo, endividamento, exclusão e desesperança. Quando a democracia não consegue entregar qualidade de vida, ela começa a perder legitimidade.

Esse vazio abre espaço para narrativas perigosas. Discursos autoritários surgem embalados pela promessa de eficiência, ordem e soluções rápidas. Em nome da segurança ou do progresso, relativizam-se direitos, enfraquecem-se instituições e normaliza-se a violência, seja contra opositores internos, seja por meio de guerras e intervenções externas. A democracia, então, deixa de ser prática e passa a ser apenas retórica, usada conforme a conveniência política e estratégica.

O que se vê no cenário internacional reforça essa percepção. Democracias que se apresentam como guardiãs da liberdade recorrem à força militar para impor seus interesses. Regimes autoritários, por sua vez, usam o caos global como justificativa para endurecer ainda mais o controle sobre seus povos. No meio desse embate, estão as populações civis, pagando o preço mais alto em vidas, deslocamentos, fome e medo.

Diante disso, a pergunta inevitável ressurge: a democracia deu certo?

Talvez a questão mais honesta seja outra. Não fracassou a democracia enquanto ideal, mas a forma superficial e seletiva com que ela foi aplicada. Democracia não se pode resumir ao rito eleitoral nem a discursos vazios sobre liberdade enquanto se tolera desigualdade extrema e abandono social.

Desacreditar a democracia pode parecer tentador em tempos de cansaço coletivo, crises sucessivas e guerras sem fim. Mas a história mostra que, quando ela enfraquece ou cai, raramente o que surge em seu lugar oferece mais humanidade, justiça ou dignidade.

O desafio do nosso tempo não é abandonar a democracia, mas resgatá-la, torná-la mais profunda, mais justa, mais responsável e, sobretudo, mais próxima da vida real das pessoas.

Sem isso, ela deixa de ser um ideal vivo e passa a ser apenas uma palavra bonita ecoando em meio ao barulho das guerras.

Samuel Vidilli é cientista social

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