OPINIÃO

A anta, a linguagem e o ruído da comunicação


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Você é uma anta! Já ouvimos esse xingamento por aí, mas ao analisarmos o animal anta percebemos que ele nada tem de desprezível, ignóbil, muito menos ignorante.

A descrição de anta-brasileira (Tapirus terrestris) no dicionário nos informa que “é um mamífero herbívoro de grande porte, pertencente ao gênero Tapirus. É a espécie mais considerada o maior mamífero terrestre da América do Sul. A anta é um animal silvestre, de hábitos majoritariamente noturnos, corpo robusto, patas curtas e focinho alongado em forma de pequena tromba, que utiliza para se alimentar e manipular objetos.”

Forte e silenciosa, é essencial para o equilíbrio das florestas. Exerce papel decisivo na regeneração do ambiente por meio da dispersão de sementes. Ainda assim, no senso comum, seu nome foi distorcido e passou a ser usado como ofensa, sinônimo de ignorância ou lentidão. Essa inversão de sentido diz menos sobre o animal e muito mais sobre como nos comunicamos.

Quando a linguagem toma um rumo totalmente difuso e contrário a sua origem é preciso soar o alarme. Rotular para descrever pessoas sem saber do que se está falando é reflexo do empobrecimento do pensamento e consequente da língua.

Na prática, quando alguém recorre ao rótulo em vez do argumento, para descrever pessoas, comportamentos e lideranças, está revelando mais sobre nossa ansiedade coletiva do que sobre o outro. A anta não é ignorante. Ignorante é a linguagem que desiste de explicar, dialogar e construir sentido.

Assim como a natureza, a anta não compete por palco. Ela sustenta o ecossistema. Observa, avança com constância e deixa marcas que não são imediatas, mas duradouras. Se utilizarmos suas características como metáfora para a comunicação, poderíamos afirmar que ela representa um modelo de presença madura em tempos de excesso de ruído.

A anta simboliza o tipo de liderança que não precisa se impor pelo volume da voz, pela pressa das decisões ou pela necessidade constante de validação. Ela ensina que consistência vale mais do que performance e que resultado sustentável não nasce do improviso, mas da observação atenta do ambiente e da ação alinhada ao propósito.
 
Em um mundo corporativo marcado pela hiperexposição, pela opinião instantânea e pela comunicação reativa, a metáfora da anta nos convida a uma pausa estratégica para pensar antes de falar. Para ouvir antes de responder. Para compreender antes de julgar. Comunicação madura não é aquela que responde a tudo, mas a que escolhe o que merece resposta.

Líderes que se comunicam com clareza e assertividade sabem que nem toda presença precisa ser barulhenta. Eles constroem confiança pela coerência entre discurso e prática. Sustentam times, processos e culturas organizacionais sem a necessidade de protagonismo constante. São líderes que deixam legado, ainda que não deixem rastros imediatos.

Ao contrário do que o senso comum tenta impor, inteligência não se mede pela rapidez da fala, mas pela qualidade do pensamento. Resgatar o sentido das palavras é também resgatar o sentido das relações. Quando empobrecemos a linguagem, empobrecemos o diálogo, o pensamento e a convivência. Quando escolhemos comunicar com intenção, devolvemos à palavra sua função mais nobre que é construir pontes.
 
A anta não é ignorante. Ignorante é desistir de pensar.

Rosângela Portela é jornalista, mentora em comunicação

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