As notícias sobre casos de exploração infantil/abuso sexual e de adultização, ou seja, de exposição inapropriada de crianças e adolescentes, têm sido evidentes nos últimos dias. Casos que, infelizmente, continuam sendo o gargalo de autoridades e de países onde o olhar para a criança é negligenciado.
Mas, felizmente, em meio a casos de abusos infantis surgem organizações, pessoas, projetos para ‘aliviar’ ou ‘dar vozes’ a esses pequenos que apenas querem viver seu momento: o de ser criança. E foi justamente para mudar este cenário e lembrar que criança deve ser criança que, em 2017, nascia o ‘Projeto Bunekas’ com o propósito de levar bonecas de pano para crianças que vivem em extrema vulnerabilidade social, em especial no continente africano, resgatando a infância, a autoestima e trabalhando a prevenção do abuso sexual.
De lá para cá já foram 40 mil bonecas entregues, 118 mil itens oferecidos, 52 países visitados e quase 500 voluntários espalhados pelo mundo. A psicóloga e dentista Michelli Bordinhon, idealizadora do projeto, explica que a ‘buneka’ não é apenas um brinquedo: é uma projeção, ou seja, uma ferramenta utilizada para gerar identificação e conexão emocional com a criança.
“Infelizmente a cultura do abuso está em qualquer lugar do mundo, sem escolher território ou raça. Trata-se de um fenômeno intrafamiliar, porém nem sempre a criança ou até o familiar daquela criança entende que aquele ato é considerado abuso. Em muitos casos, a pessoa que deveria cuidar e amar é quem abusa.”
Estreitar relações
Os contatos com pessoas ou organizações locais ajudam no estreitamento do trabalho com as famílias e crianças das aldeias, em especial nos países africanos, como Guiné-Bissau, Angola ou Moçambique. De forma lúdica e com o auxílio da boneca, entendem a importância de respeitar o corpo e saber que nem sempre ele pode ser tocado.
“Ficamos mais ou menos 15 dias em um determinado local levando informação, não apenas do que é certo ou errado, mas também oferecemos atendimentos de saúde com médicos e dentistas. Muitos casos são de abuso oral, justamente para não deixar vestígio e a odontologia ajuda a identificar as lesões”, diz Micheli que se formou em odonto também como forma aprofundar mais em suas descobertas e ajuda às crianças.
O trabalho feito pelos voluntários, seja confeccionando as bonecas ou viajando para os países para entregá-las, é apenas uma pequena missão que continua na busca de outros ‘anjos’. É preciso ficar atento aos sinais e denunciar qualquer tipo de desconfiança. “Os agressores se apresentam de diferentes formas, por isso é preciso escutar esta vítima. E, se souber de algum caso deve denunciar, seja na escola, pelo Disque 100 ou Conselho Tutelar. Temos que fazer barulho e diminuir os índices de violência, inclusive em países mais vulneráveis. A pior pobreza é um país esquecido. A violência sexual é a maior arma de guerra.”

Michelli Bordinhon, idealizadora do projeto, reforça a importância de observar as crianças
A boneca e suas feições
Pensada para ser um instrumento da psicologia, a boneca representa a beleza africana, valorizando seu tom de pele e seu cabelo para que todas sintam-se representadas e identificadas. O termo "buneka’ vem do criolo, língua oficial da Guiné-Bissau.
O rosto é neutro, ou seja, em um primeiro momento parece sem expressão, mas reflete o que a criança está sentindo naquele momento. Elas ganham também lindas faixas na cabeça e recebem essência de bergamota que, além de ser um aroma repelente, também é muito conhecida na África. “As voluntárias seguem um protocolo para a confecção daquelas bonecas. E mesmo quando chegamos a uma aldeia, as mulheres são ensinadas a costurá-las para que exista um padrão.”
Todas têm um bolsinho no vestido em que vai um bilhete escrito em crioulo ‘Be sedu bunitu di mas’ que significa ‘você é linda’. Além disso, a boneca utiliza calcinha porque é uma maneira educacional para abordar o abuso infantil.
Além das bonecas, as meninas recebem um kit com vestido — com a mesma estampa da boneca —, calcinhas e enfeites para o cabelo. Para conhecer mais sobre o projeto, acesse o site https://institutobunekas.org ou instagram @projetobunekas.
Para saber mais, ouça o Podcast JJ na quarta-feira, dia 3 de setembro.

Cada detalhe das bonecas é pensado de acordo com a características das crianças