A Casa de Alices, iniciativa criada pela Guarda Municipal Andréia Melo, presta acolhimento e orientação a mulheres vítimas de violência, abuso e exploração em Jundiaí e região. Em janeiro deste ano, o projeto atendeu cerca de 50 mulheres.
O projeto surgiu da crescente demanda por apoio, que Andréia identificou ao longo de quase 20 anos de atuação na área. Inicialmente, os atendimentos eram realizados de maneira individual, mas com o tempo, a rede de apoio cresceu e se estruturou como a Casa de Alices.
Inspirado no conto "Alice no País das Maravilhas", o nome simboliza o processo de transformação pelo qual as mulheres passam ao buscar ajuda. "Assim como Alice, que precisa encontrar a chave para abrir uma porta e enfrentar novos desafios, ajudamos essas mulheres a abrir essa porta, encontrar essa chave e seguir novas possibilidades", explica Andréia.
A Casa de Alices atua no fortalecimento da autoestima e autonomia pessoal e social das assistidas, oferecendo suporte jurídico, psicológico, social e médico. Muitas das mulheres atendidas foram encaminhadas por órgãos oficiais ou buscaram ajuda por meio das redes sociais.
Uma das voluntárias médicas da Casa de Alices, que preferiu não se identificar, conheceu o projeto em um momento crucial de sua vida. Iniciou um relacionamento que parecia um conto de fadas, mas se transformou em um pesadelo. "Ele parecia o príncipe encantado, mas era o próprio pesadelo", relata. Durante 11 meses de namoro, descobriu que o companheiro era casado e tinha outra família. Quando tentou terminar, ele não aceitou e começou a persegui-la.
Diante das ameaças, procurou a delegacia e solicitou uma medida protetiva. Foi nesse momento que conheceu a Casa de Alices e recebeu todo o suporte necessário. "Elas me acompanharam até a delegacia, ofereceram apoio psicológico e estiveram ao meu lado durante toda a semana", conta. Além de ameaçá-la, o ex-companheiro intimidou seu irmão, aumentando ainda mais seu medo e insegurança.
Na época, ela cursava medicina e decidiu que, ao se formar, se tornaria voluntária na Casa de Alices como forma de gratidão pelo suporte que recebeu. "Quero ajudar outras mulheres a entenderem que há vida depois da violência, que elas não são culpadas pelo que aconteceu", afirma. Para ela, um dos maiores desafios enfrentados pelas vítimas é a manipulação emocional exercida pelos agressores. "Eles fazem a gente se sentir culpada, como se fôssemos loucas e histéricas, quando na verdade são eles os errados", desabafa. Hoje, sua missão é garantir que outras mulheres saibam que não estão sozinhas e que há um caminho de reconstrução após a violência.
O atendimento é gratuito e conta com a colaboração de profissionais voluntários. Mulheres interessadas em buscar apoio ou profissionais que desejam atuar como voluntários podem entrar em contato pelo telefone (11) 97555-9986.