Opinião

Cabelos pendurados no céu

31/08/2023 | Tempo de leitura: 3 min

Estou lendo, de Mia Couto, "As Pequenas Doenças da Eternidade", livro recém-chegado às livrarias. Escritor e biólogo moçambicano. Participou do movimento de libertação moçambicana - o país foi colônia de Portugal até 1975. Em 2013, recebeu o prêmio Camões de Literatura.

O jornal "Estado de Minas", que o entrevistou recentemente, por ocasião da FliParacatu, primeiro festival literário daquela cidade mineira, acontecido de 23 a 27 de agosto, comentou que o livro, com pequenos contos, não fala da pandemia, mas da solidão que acometeu milhões de pessoas no período inicial da crise sanitária mundial. Em seu conto, "A imortal quarentena", se encontra: "A pandemia faz-nos prisioneiros sem cárcere, cria uma nação feita de culpa e medo". E aqueles que tiveram vítimas próximas, ficaram prisioneiros da saudade, penso eu, e da impotência por não conseguir ser mais forte que um vírus minúsculo.

Conheci a obra literária de Mia Couto através de minha cunhada e me tornei leitora contumaz dele. Essa sua maneira de dizer as verdades a partir de seu olhar poético me encanta. Penso que abranda o coração. Distanciamento social e indiferença são por demais dolorosos.

Lia o conto "As pequenas doenças da eternidade", que dá título ao livro, quando me chegou a notícia de que a senhorinha levara um tombo com fratura no fêmur e na clavícula. Pesou em mim. Gosto dela além da medida. Familiarizamo-nos em 2005 e seu jeito de ser, sua resistência, sua luta pelos netos, sua certeza na transformação da filha me encantaram. Sua ascendência indígena, comprovada em seus traços fisionômicos, os termos que sempre precisei perguntar o que significavam, as indicações de chás, a fé inabalável em Deus... As conversas pessoais com as plantas, que muito mais que adubo, as fazia florescer.

Ao mudar para outro bairro, pouco nos vemos presencialmente, contudo nos falamos quase todos os dias. Não foi à escola, pois estava na roça no nordeste desde os sete anos, porém de um jeito dela aprendeu a ler sem escrever. Seleciona vídeos, em especial de gatos e religiosos, para me enviar. Delicadeza incrível das mãos marcadas pela enxada.

Voltando ao conto "As pequenas doenças da eternidade". Nele se fala sobre Margarida e o filho Júlio. Transcrevo um parágrafo: "Margarida costurava enquanto Júlio, o mais novo dos filhos, a penteava com uma escova de madrepérola. (...) Uma e outra vez assisti àquela encenação e vi como, no final, o meu amigo recolhia os cabelos tombados no chão para os erguer de encontro à luz da janela. Cada cabelo era um fio tricotando as nuvens. Júlio dependurava no céu os cabelos da mãe". Tão linda essa descrição!

Voltando à senhorinha. Assim que foi avisado, o neto veio da cidade vizinha para estar ao seu lado. Reconhece e é grato demais pelo esforço e dedicação em cuidar deles. Uma vez, comentou em seu Facebook que, ao faltar comida, a avó lhes pedia para ajoelharem e pedirem a Deus que Ele providenciaria. Saía de casa e retornava com alimento.

No domingo à noite, postou no status do celular uma foto da avó, ressonando na cama de hospital e escreveu abaixo: "Minha rainha". Do lado de cá, senti que recolhia a história dela com ele e cada pulsar do seu coração era um ponto de claridade e esperança no quarto enfermo.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista (criscast@terra.com.br)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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