Opinião

Buscar-me

17/08/2023 | Tempo de leitura: 3 min

Tenho refletido, na convivência cotidiana, sobre buscar-me ou buscar o outro. Tratei a esse respeito na última direção espiritual e confissão com o Padre Márcio Felipe de Souza Alves, Reitor do Santuário Diocesano Santa Rita de Cássia, meu querido diretor espiritual, que me ilumina e me traz a misericórdia de Deus.

Permaneço sensibilizada com a Via-Sacra da Jornada da Juventude com o Papa Francisco Detive-me na sexta Estação, citei em outra crônica. Verônica enxugou o rosto de Jesus e ficou em seu lenço o rosto dEle impresso. O texto diz: "Amar é assim, é deixar-se mover pelo rosto do outro, mesmo desfigurado...Amar é deixar-se atrair pelo rosto do outro".

Medito e me acuso das vezes que me busco em relação ao próximo e não percebo aquilo que se passa com ele.

Como exemplo, primórdios da Pastoral da Mulher. A propósito, a Pastoral da Mulher e a Magdala foram e são para mim um anúncio do Evangelho em relação ao convívio com mulheres em situação de vulnerabilidade social, com suas histórias de sofrimento, sensibilidade, insistência, mudanças, fé... Vão despedaçando os pedestais em que, por isso ou aquilo, me coloco. Foram tantas que já fizeram parte de minha história...

Jesus anuncia (Mt, 21, 31-32): "Em verdade vos digo: os publicanos e as meretrizes vos precedem no Reino de Deus! João veio a vós no caminho da justiça e não crestes nele. Os publicanos, porém, e as prostitutas creram nele. E vós vendo isto, nem fostes tocados de arrependimento para crerdes nele". São mulheres que, pelo Céu, não se recusam a transformações.

Uma das integrantes, que conheço desde 1982, comentou que se lembrava de minhas idas à praça central e ruas do entorno, naquela época, com calçado de salto luís XV, para conversar com elas. Tive um impacto. Jamais usei um salto acima de seis centímetros. Confirmou o que eu pensava: ir aos locais, à procura de mulheres em situação de exclusão em espaços abertos e bares, é um fato, contudo, na realidade, buscava a mim mesma, talvez para aparência de generosidade. Levava o pedestal de meu orgulho e considerando que poderia transformar a realidade de cada uma, à minha imagem e semelhança. Quem me convidou, humanamente falando, foi meu inesquecível pastor e profeta Dom Roberto Pinarello de Almeida, mas por inspiração do Cristo Jesus. Depois de vários acontecimentos, o Senhor foi me mostrando que era Ele e não eu. Só não levei um tombo feio, de meu pedestal, porque Deus é muito delicado.

Vem-me uma das integrantes da Pastoral que há alguns anos partiu. Sua vida foi de sofrimento. Colocada em um orfanato, no qual apanhava muito, fugiu aos 15 anos. Era de fé em Deus e de respeito pelas pessoas. Nos últimos dois anos, arranjou um companheiro. Protegeu-o para que não fosse contaminado pela doença que carregava.

Quando chegamos ao velório, ele comprara um caixão branco, por ser a primeira pessoa que o tratara com pureza de intenção e lhe dera a crença na vida. Amar é isso, como foi colocado na Via-Sacra, deixar-se mover pelo rosto do outro.

Escreveu Guimarães Rosa: "A gente vive muito em voz alta. Mas às vezes a gente não se ouve".

Atualmente, as observo sem meus pedestais e com ternura imensa. Elas ajudam a me salvar, quando me permito sair de mim mesma e entrar na existência delas.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista (criscast@terra.com.br)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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