Que me desculpe a garotada da geração Y que não viveu isso - e também os baby boomers e a geração X, que talvez considerem um tanto quanto fútil o que vou dizer - mas eu sou da época em que foi necessário esperar, comendo miojo com salsicha, pelo lançamento da esperada câmera digital para conseguir tirar fotos sem precisar que alguém as clicasse para mim. Saudosa Sony Cyber-Shot.
Era o fim das fotos tremidas de paisagens e das poses cafonas com as mãos no quadril eternizadas por máquinas fotográficas analógicas, em filmes e mais filmes que revelávamos em álbuns de fotografia, como que em uma epifania da modernidade, e que hoje estão empoeirados no armário. Agora a moda era baixar tudo no computador, onde uma infinidade de pastas com nomes como “Níver tia” e “Carnaval 2003” era criada.
Mas nada era tão aflitivo quanto ter que escolher uma entre várias selfies - nome pop para os chamados autorretratos. Meu Deus, eram dezenas delas. Caras e bocas parecidíssimas entre uma foto e outra, a pele reluzente de quem ainda não tinha boletos para pagar e mesmo assim uma busca sem solução pelo clique perfeito utilizando apenas uma boa luz ambiente.
Para onde ia isso, afinal? Aí é que está. O início dos anos 2000 foi quando as primeiras redes sociais começaram a pipocar, trazendo como possibilidades, além dos chats, também pequenos álbuns digitais de fotos. Era a grande oportunidade de mostrar a que viera aquele avatar, aquele perfil, aquele recorte de gente num mundo online que não era bem real. E escolher as que iam para a página, acredite, era uma tarefa árdua.
Antes que você, caro leitor, desista deste texto por achar que não vou chegar a lugar nenhum, saiba que estou me referindo a um fenômeno que, infelizmente, não se limitou à época do Orkut e afeta você também. É que no universo conectado, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma, e sim, as plataformas só foram mudando de nome e, ao aprimorarem absurdamente as tecnologias e filtros de beleza, a distância entre a cara real e a cara na tela foi ficando cada vez mais profunda.
Ora, vamos falar bem sério aqui. Estamos presentes nas redes sociais em busca de pertencimento. Publicamos textos, compartilhamos conteúdos e postamos fotos com o objetivo de consolidar nossa identidade ora para reconhecimento de grupos com ideias similares, ora para colocar-se de maneira contrária a determinado conjunto de valores. Além do mais, cientistas descobriram, por meio de testes, que os "likes" obtidos em postagens ativam a região do cérebro responsável pelas sensações de recompensa e prazer. Isso já foi objeto de inúmeros estudos, inclusive da Frontiers in Human Neuroscience, que relaciona esse sistema à mesma satisfação de quando praticamos sexo ou ganhamos dinheiro.
Incrível, né? Agora, dito tudo isso, lembre-se você do que aconteceu quando a pandemia de Covid-19 foi decretada, em 2020. Vivendo em isolamento - total ou parcial - muitas pessoas passaram a usar mais as redes sociais. Foi o golpe fatal dos filtros, que vieram com tudo, nos acalentando com uma versão glamurosíssima de nós mesmos enquanto estávamos, na verdade, de roupa furada e olheiras fundas. Eu tive a sorte de contar com a companhia de Rita Lee, me deliciando com a leitura de sua autobiografia e com sua discografia que eu, com prazer, tenho em vinil. Mas não foi só sobre isso.
Sabe o que acarretou naquela época? Pasme: em um aumento brutal da procura por cirurgias plásticas. Exatamente. A necessidade de estar bem com si próprio gritou com a popularização das selfies, e o pobre nariz foi o membro mais afetado. Segundo dados da Academia Brasileira de Cirurgia Plástica da Face (ABCPF) em 2020, a rinoplastia foi o procedimento facial mais realizado entre os brasileiros ainda naquele ano, colocando o Brasil em protagonismo no ranking da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS, na sigla em inglês). De acordo com o levanamento, 87.879 cirurgias de nariz foram feitas no país.
Isso tem nome: Dismorfia de Snapchat. O termo foi criado por especialistas em 2018 e ficou classificado dentro do chamado Transtorno Dismórfico Corporal, em que a pessoa passa a enxergar defeitos no próprio corpo ou rosto e deseje, a todo custo, se parecer exatamente com a foto com filtro na rede social. Afinal, em meio à imensidão de gramas mais verdes, nos tornamos meros operários vigiados 24 horas por dia pelo “Grande Irmão”, tal qual na obra de George Orwell. A diferença é que brother são pessoas em buscas idênticas às nossas.
Eu também fui uma vítima. Logo eu, que ouvi a rainha da liberdade cantar tantas vezes “um belo dia resolvi mudar e fazer tudo o que eu queria fazer” no meu ouvido, me ensinando como lançar às favas os padrões sociais. Logo eu. Uma vez, eu, profissional que trabalha com imagem diariamente, cheguei em casa depois de um dia, ainda preservando uma boa maquiagem, tentei usar os filtros do Instagram como escape para lidar com problemas emocionais. A intenção, consciente - peço desculpas à minha psicanalista - era a de criar um entretenimento gratuito aos meus seguidores como quem não tem problemas na vida, no intuito de acreditar naquela versão feliz de mim mesma. Não é essa perfeição que vejo todos os dias desfilando debaixo do meu nariz todo dia nessa TV chamada sequência de stories? Pois agora seria minha vez. Apontei a câmera frontal para o meu rosto e comecei o ensaio improvisado. Tirei a primeira. Achei que o nariz ficou um pouco grande. Tirei outra. Tremi sem querer. Mais uma. Mas que raio de fio de cabelo!
Muitíssimo insatisfeita com o resultado que saía a cada foto, me distraí e deixei o aparelho escapar das mãos, o fazendo cair estrondosa e gostosamente de cara pro chão. Abaixei para pegá-lo, xingando palavras horríveis que não vou transcrever, e vi o racho criado exatamente sobre a lente que tanto captava meu rosto. Tive vontade de chorar. Me sentei no sofá da sala, me sentindo idiota. Com a sensação das bochechas esquentando, percebi que as lágrimas brotavam nos olhos. Mas nesse meio tempo me distraí de novo tentando consertar a tela. A lágrima interrompida me deu uma vontade irresistível de espirrar. Espirrei, ao que a lágrima escorreu de verdade. Mas só de um lado. Me levantei e fui até o espelho. Vi a metade do rosto maquiado derretido e fantasmagórico. Desculpe o auê, disse para mim mesma, olhando para os meus cabelos coloridos. Eu não queria magoar você.
Quis muito, mas muito, rir. E soltei. Ri. Gargalhei uma gargalhada leve, boba e feliz antes de tomar meu banho para entrar na sessão de terapia, onde, obviamente, continuei trabalhando minha autocobrança excessiva.
Sair de si para inventar uma versão que consideramos mais bonita é incrível. Mas dura muito pouco. Ficar em si, se reconhecendo a cada olhada no espelho, é sublime. Não é possível que esse legado de Rita caia no esquecimento. Não deixaremos. Não deixarei. Porque um belo dia - e esse dia levou uma vida - eu resolvi ficar.
Mariana Meira é jornalista, cantora e compositora (mmeira@jj.com.br)