DIFERENÇA

Pais sentem inflação e custo de um filho exige planejamento

Por Nathália Sousa |
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Arquivo Pessoal
Fabiana Michele da Cruz foi surpreendida com a chegada de gêmeos
Fabiana Michele da Cruz foi surpreendida com a chegada de gêmeos

Dentre o universo de desafios existentes na criação de um filho, sem dúvidas o financeiro é um dos principais. Com custos de vida cada vez mais altos, pais com as mais variadas rendas familiares se preocupam e até se surpreendem com os gastos após o nascimento dos bebês. Até o primeiro ano, além das fraldas intermináveis, a alimentação, vestuário, medicamentos e itens de higiene e cuidado são citados entre as despesas, mas até os gastos com gasolina, água e luz, por exemplo, aumentam.

De acordo com um levantamento produzido pela Insper sob encomenda do jornal O Estado de São Paulo (Estadão), até que uma pessoa atinja a maioridade, os pais têm gastos que partem de cerca de R$ 240 mil, entre a classe E, podem ultrapassar R$ 1 milhão na classe C e superar os milhões nas classes B e A. A variação, evidentemente, depende do que é oferecido às crianças, como educação particular, por exemplo. O JJ ouviu pais de bebês para saber o que já gastaram e como se planejam. Os pais entrevistados têm diversas faixas de renda familiar mensal, de R$ 0 a R$ 20 mil.

IMPACTO

Confeiteira, Sue Ellen Neves, de 31 anos, tem renda mensal familiar de cerca de R$ 3 mil. Ela tem um filho de 9 anos, o Joaquim, e um de um ano, o Vicente, e percebeu na prática o aumento de preços entre os dois nascimentos. "Tem muita diferença. Quando o Joaquim nasceu, eu trabalhava fora, em shopping, e tinha mais opção de preço das coisas. Antes eu comprava caixa de fralda e hoje não encontro mais. A qualidade também já não é a mesma. O Joaquim eu amamentava, o Vicente não, então tive que dar fórmula. Gasto mais por causa da fórmula, mas roupa, fralda, é mais caro do que há 9 anos."

Para Sue Ellen, a ajuda das outras pessoas foi muito positiva nos primeiros meses, mas ela percebe os preços bem mais altos e precisa se planejar mais para as compras. "Eu fiz chá de fralda e usei as que ganhei até 7 meses, então economizei. Fórmula, no primeiro mês, foi mais de R$ 250, até uns 6 meses, quando começa a introdução alimentar, aí mudei para o leite em pó. Uso três latas grandes por mês e custa R$ 59. Ele está na fase de sair dente, então troco fralda umas cinco vezes por dia, dá praticamente um pacote por semana", explica.

PLANEJAMENTO

Garçonete, Silvana Lima, de 35 anos, tem renda de R$ 2,9 mil. Ela cuida sozinha dos filhos João, de 12 anos, Rafaela, de 7 anos, e o bebê Israel, de 9 meses, e se assusta com os encarecimentos de produtos. "A fralda não senti tanto, porque consegui me organizar no início, estava em um trabalho estável e foi surpresa, mas consegui me organizar. Fiz chá de bebê e comecei a comprar fralda recentemente. Uma lata grande de fórmula era R$ 80 quando tive a Rafaela, hoje é R$ 140. Mesmo o leite de caixinha, está R$ 6. As coisas ficaram caras na pandemia e os preços não abaixaram. Há sete anos eu conseguia comprar mais frutas, legumes, hoje eu ainda compro, mas em menor quantidade."

Para ela, o maior gasto é com babá e transporte para a creche. "Tenho convênio, tíquete alimentação, mas ainda tem gasto. O Israel vai para a creche, pago R$ 250 do transporte e R$ 800 de babá. São os principais gastos que eu tenho. Compro bastante coisa on-line e, embora demore para entregar, me planejo, então compensa. Na gravidez, quando soube, já fui atrás de berço, roupa em bom estado em brechó infantil. O que não tem como fugir é medicação, mas mesmo assim vejo se tem entrega grátis", conta.

Organizada, Silvana sempre pensa em prazos, tenta evitar imprevistos e fez uma laqueadura logo depois do parto para "fechar a fábrica". "No momento, percebi que está chegando o frio e sei que, quando muda a temperatura, o Israel pode ficar doente, então faço reserva para se ele precisar de um exame que o convênio não cubra ou um medicamento", diz.

Conferente, Fabiana Michele da Cruz, de 39 anos, tem renda mensal familiar de R$ 4,5 mil. Ela já tinha dois filhos mais velhos, Ana Lara, de 7 anos, e Nicolas, de 6 anos, e recentemente teve os gêmeos Cecília Aurora e Arthur Noah, de 8 meses. Para a chegada dos dois, ela teve bastante ajuda de pessoas próximas e conta que foi um baque, porque o marido era temporário no trabalho e ficou um pouco desesperado.

"Fora o serviço, meu marido chegava em casa e ia fazer entrega de noite, e fazia bico de fim de semana. Agora que voltei da licença maternidade, não dá mais para ele ir. Os dois estão indo para a creche e a perua é R$ 400 por mês para levar", conta ela.

Fabiana faz compras sempre em grandes quantidades para aproveitar promoções. "Com certeza já gastei mais de R$ 3 mil com os dois. Em 8 meses, fiz quatro compras grandes de fraldas. A fórmula, uma lata dava para uma semana, aí depois passou a ser uma lata e meia. Agora são quase três latas por semana. Só neste mês já gastei R$ 1 mil e o mês ainda nem acabou."

"Compro de 10 a 15 pacotes de fraldas a cada um mês e meio, porque sai mais barato. Da última vez comprei 15 pacotes a R$ 20 cada. Também uso três latas de fórmula por semana e compro por R$ 150 as três. Semana passada peguei 14 pacotes de lenço umedecido e quatro latas de fórmula e paguei R$ 300", detalha.

CLASSES

Advogado, Jeferson Pereira dos Anjos, de 30 anos, tem renda familiar mensal em torno de R$ 20 mil. Ele tem o filho Maximilian, de 2 anos e oito meses, mas espera mais um menino, que nascerá em breve. "No 1º mês, meu gasto foi de aproximadamente 20 reais por dia. Tínhamos muitas coisas que ganhamos, então gastei cerca de R$ 20 por dia além do ganhado. Hoje, ele ainda usa fralda e só a pomada de assadura sai quase R$ 150 por mês. Saí de Jundiaí e fui para Santa Catarina, lá era R$ 800 a mensalidade da escolinha, o gasto com alimentação é aproximadamente R$ 600 por mês, para ter frutas, verduras, legumes, carne, peixe. Sempre, procuramos manter uma alimentação equilibrada. Com transporte, eu gasto dois tanques por mês, então é uns R$ 400 de gasolina. Fralda varia um pouco, mas temos o costume de trocar cinco vezes ao dia", conta.

Com a esposa grávida, Jeferson pretende reutilizar alguns itens que Maximilian usou. "Graças a Deus temos uma condição, mas realmente não é fácil manter. As pessoas falam que o valor que gastamos com uma criança equivale a um veículo Celta, mas acho que tudo que eu gastei já passou disso."

Jeferson conta que a busca por promoções é constante. "Trabalhamos muito, madrugadas adentro, então é suado. Sou o consumidor que busca promoções sempre. Ele usa só dois tipos de fralda, as outras dão alergia, então pegamos promoção em que a tira sai a R$ 1,03, isso é ótimo, fora da promoção, é cerca de R$ 1,70", diz ele rindo.

Para ele, o planejamento é muito importante para abater um pouco o os custos onde é possível. "Foi um planejamento, ganhamos algumas coisas, mas não deixamos acabar para repor e isso não é só para o bebê, é para a casa toda. Para o Maximilian, fiz uma reserva com a minha esposa há algum tempo e todo mês faço uma poupança. Não penso em criar meus filhos com tudo de mão beijada, porque eu não tive, mas faço essa reserva, porque, se for preciso no futuro, ele tem uma segurança."

Desempregada, Tabata Pagnan, de anos 31, não tem renda atualmente. Ela tem Yago, de 1 ano e 4 meses, e Clark, de 11 anos. Tabata descobriu a gravidez no começo e conseguiu se organizar. "Não parei para pensar o que gastei até agora, soube que estava grávida bem no começo, então tive um tempo para me planejar. Atualmente não tenho renda mensal, por estar desempregada. Consegui fazer um estoque bom de fralda, tanto que está acabando agora. Alimento eu vou comprando conforme vai dando", relata.

Para ela, além de mais caros, os produtos perderam qualidade e não há variedade como há alguns anos. "Fralda é o maior custo que tenho, o Yago ainda usa M e já acabou meu estoque. Antes, quando o Clark nasceu, era bem mais barato. Hoje consigo comprar bem menos com o mesmo valor de antes e não encontro marcas mais em conta. E as que tem, não são boas como há 11 anos. Sempre vou atrás de promoção."

Tabata já não consegue se planejar, pois, desempregada, não consegue comprar itens em quantidades grandes. "O Yago mama no peito, mas também mama na mamadeira e já se alimenta. Compro leite, não ganho. Não tenho atendimento social para receber alimentos. Meu planejamento é no dia a dia, meu sonho é conseguir me planejar, comprar vários pacotes para economizar, mas consigo só dois, três no máximo", lamenta.

Sue Ellen Neves percebe aumento nos preços de produtos para bebê
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Jeferson dos Anjos estima ter gasto milhares de reais com Maximilian
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Silvana Lima se planeja para aproveitar promoções pela internet
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