Opinião

Meu pé de goiaba vermelha

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Assim como José Mauro de Vasconcelos teve, na sua infância, seu pé de laranja lima, não posso negar que tive, nos mesmos tempos, meu pé de goiaba vermelha. Claro que ela não era minha confidente, mas foi ali que passei boa parte dos primeiros doze anos de minha vida.

Não tinha um dia que não me aproximasse da árvore para ver se estava aparecendo uma flor ou um fruto novo. E não é mentira dizer que eu sabia, galho por galho, como era aquela goiabeira. Era nesta árvore que eu e meus irmãos nos divertíamos. Mesmo que não houvesse fruto, lá estávamos nós, brincando de 'mocinho e bandido'. Escondíamos atrás dos galhos, montávamos cavalinho em outros, balançando a árvore para se imaginar o galope. Os tiros eram disparados com o dedo, pois não tínhamos dinheiro para comprar revólveres de brinquedo e, na verdade, não queríamos saber deles. E para "morrer" tínhamos que cair da árvore. O último que sobrava era o vencedor da brincadeira, que era interessante pois na "luta", para se continuar sobre a árvore, disparávamos os tiros, sempre "certeiros" contra o inimigo. E, se na hora não se morria, a brincadeira tomava rumo perigoso. De quase briga, tanto que, o autor do disparo já bradava alto e bom som: "morre aí senão não brinco mais..."

Mas o melhor mesmo na goiabeira era ver as frutas crescendo, imaginar o dia seguinte quando ela estaria pronta para ser colhida e comida. Chegávamos a "esconder" a fruta com folhas, imaginando que o outro irmão não fosse vê-la. Mas havia um respeito grande, principalmente quando alguém dizia: "eu vi primeiro"! Pronto! A fruta já tinha dono. E o respeito era tanto que, se alguma goiaba fugisse ao tamanho normal, aquele que se dizia "dono" da mesma acabava dividindo com os irmãos.

Mas a goiabeira era, na verdade, meu refúgio, meu esconderijo... Quando brigava com meus irmãos, lá ia eu para a goiabeira, "chorar" a derrota. Lamentava a briga, prometia tentar ser diferente a partir daquele dia e ficava olhando os galhos para imaginá-los balançando e, ao ouvir o som do vento soprando, sentir uma palavra de conforto de um amigo fiel.

Com oito ou dez anos eu era, de todos os meus irmãos, o que mais subia nas árvores do quintal de casa. Tínhamos o pé de goiaba vermelha, de goiaba branca, mas não tão saborosa como a outra, de manga coquinho, de jabuticaba, abacate, ameixa e outras que não podíamos subir, por serem de pequeno porte, como o pé de laranja baiana, de laranja lima, de pêssego, e o de laranja caipira que meu pai usava para fazer vinho.

O dia mais triste que vivi com minha amiga goiabeira, foi quando, do chão, joguei um bambu para que o mesmo ficasse preso num dos galhos da árvore; mas ele caiu sobre minha cabeça, enchendo meus cabelos de sangue e me deixando apavorado, imaginando que ela estava se vingando de mim.

Só voltei ao quintal uma semana depois, já com a ferida cicatrizada. Senti os galhos da goiabeira balançando suavemente, como que cantando uma canção. Abracei o tronco, olhei até o alto da árvore e foi lá, no último galho, que vi uma linda goiaba, prontinha para ser colhida. Subi rapidamente, colhi a fruta e a devorei ali mesmo, sem dividir com ninguém. Passei a tarde brincando com a árvore como nos velhos tempos. Balançando os galhos, saboreando a delícia da fruta, como se a árvore quisesse se desculpar pelo ocorrido.

Meus irmãos ainda se divertem ao lembrar do bambu machucando minha cabeça, mas guardo escondido dentro de mim a lembrança de eu ter saboreado a goiaba mais deliciosa de todas. Sem dividi-la com ninguém!!!

Nelson Manzatto é jornalista (nelson.manzatto@hotmail.com)

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