PESQUISA INÉDITA

Unicamp inicia estudo inédito sobre trombose no Brasil

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação/Unicamp
Estudo da Unicamp acompanha adultos, pacientes com câncer e crianças para mapear casos, complicações e recorrências da doença.
Estudo da Unicamp acompanha adultos, pacientes com câncer e crianças para mapear casos, complicações e recorrências da doença.

O Centro de Doenças Tromboembólicas do Hemocentro da Unicamp iniciou uma pesquisa inédita para traçar o perfil epidemiológico da trombose venosa no Brasil. O estudo deverá reunir informações de milhares de pacientes e ajudar a dimensionar a ocorrência da doença, suas complicações e os fatores associados aos casos.

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A investigação envolve 11 hospitais do Sistema Único de Saúde localizados em Campinas, São Paulo, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Barretos e Botucatu. Pesquisadores, médicos e outros profissionais de saúde dessas unidades integram a rede coordenada pelo centro.

A trombose venosa ocorre quando um coágulo se forma em um vaso sanguíneo e dificulta ou impede a circulação normal do sangue. Segundo a coordenadora do projeto, Joyce Maria Annichino, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, ainda faltam dados nacionais detalhados sobre a incidência da doença e sua evolução.

“Se você procurar dados brasileiros sobre a ocorrência de síndrome pós-trombótica nos pacientes com trombose na perna, não vai encontrar”, afirma. “Quantos dos pacientes que tiveram trombose tiveram um novo episódio no período de dois anos? Não temos esses dados. No Brasil, qual a porcentagem de pacientes com câncer que têm trombose? Ninguém sabe”, argumenta a professora.

O levantamento foi dividido em três frentes. Uma delas pretende formar um banco com 5 mil pacientes adultos com câncer, que serão acompanhados durante um ano para verificar a ocorrência de trombose ou morte.

Outro grupo será composto por adultos diagnosticados com trombose venosa aguda nos braços ou nas pernas. O acompanhamento ocorrerá por dois anos e avaliará possíveis novos episódios e o desenvolvimento da síndrome pós-trombótica, complicação que pode causar dor, inchaço e alterações permanentes no membro atingido.

A terceira linha da pesquisa analisa crianças que receberam cateter venoso durante internações. A inclusão desses pacientes já foi encerrada e identificou quase 250 casos de trombose entre mais de mil crianças avaliadas. Elas continuam sendo acompanhadas por seis meses após a alta hospitalar.

Os dados clínicos e demográficos são armazenados em uma plataforma eletrônica de pesquisa. Amostras de sangue também são coletadas e mantidas no Biobanco do Hemocentro da Unicamp para análises futuras.

“Vamos, portanto, apresentar dados inéditos ao país, que vão poder auxiliar na tomada de decisão e dar sustentação para o estabelecimento de políticas públicas de saúde”, acrescentou Annichino.

O projeto recebe apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e da Pró-Reitoria de Pesquisa da Unicamp.

Casos subestimados?

A Sociedade Internacional de Trombose e Hemostasia estima que aproximadamente 10 milhões de casos de trombose venosa ocorram anualmente no mundo, com incidência de um a dois diagnósticos para cada mil habitantes. Cerca de 100 mil casos terminariam em morte.

No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam mais de 36 mil novos diagnósticos durante o primeiro semestre de 2025, média de aproximadamente 200 internações por dia. Para a coordenadora do CDT, o volume está abaixo do esperado para a população brasileira e pode refletir a ausência de notificação compulsória da doença.

Annichino também destacou a sanção da Lei nº 15.448/2026, que determina a criação, em hospitais e serviços com internação, de comissões responsáveis por programas permanentes de prevenção da trombose. Os estabelecimentos terão 180 dias para implantar a medida.

Com a nova regra, pacientes hospitalizados deverão passar por avaliação do risco de desenvolver a doença. A análise poderá orientar medidas preventivas, entre elas o uso de anticoagulantes quando houver indicação médica.

“Isso é um marco em nosso país, pois muitos casos de trombose poderão ser evitados”, celebra.

Informação para a população

Além da pesquisa, o centro desenvolve ações educativas por meio da personagem Maria Clot, criada para explicar a trombose em linguagem acessível, principalmente para crianças.

A personagem aparece em vídeos, ações presenciais e conteúdos divulgados nas redes sociais. Atualmente, o projeto publica dois episódios por semana, produzidos com apoio de inteligência artificial.

“A Maria Clot é o nosso elo com a população. A universidade tem um grande papel na geração de conhecimentos, mas esses precisam ser divulgados de uma forma clara e simples e, para isso, veio a personagem”, afirma Annichino.

Como reduzir riscos

Entre as principais medidas preventivas estão a prática regular de atividades físicas, a interrupção de longos períodos sentado, a hidratação adequada, o controle do peso e o abandono do cigarro.

Em viagens prolongadas, a recomendação é movimentar as pernas, caminhar quando possível e realizar movimentos com os tornozelos. Anticoncepcionais e terapias hormonais também exigem avaliação médica, especialmente entre pessoas que apresentam outros fatores de risco.

Meias de compressão e medicamentos anticoagulantes podem ser indicados em situações específicas, como cirurgias, internações ou períodos prolongados de imobilidade, sempre sob orientação profissional.

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