POLÍTICA

Flávio Paradella: Quando a política troca realidade por borboleta

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução/Redes Sociais
Em nome do engajamento, Prefeitura e oposição escorregam no bom senso e transformam o debate sobre transporte em um desfile de desconexões.
Em nome do engajamento, Prefeitura e oposição escorregam no bom senso e transformam o debate sobre transporte em um desfile de desconexões.

A política campineira parece ter cruzado a linha para o surrealismo travestido de comunicação moderna. A busca desesperada por engajamento nas redes sociais, likes e compartilhamentos sequestrou o bom senso — e, em alguns casos, a inteligência mínima exigida para lidar com temas sensíveis.

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O episódio mais recente é quase uma alegoria. O perfil oficial da Prefeitura de Campinas publicou um vídeo exaltando as “qualidades” do BRT, com um ônibus envolto em borboletas e flores, embalado por trilha alegre e estética de conto de fadas. Não é metáfora. Aconteceu. A intenção era lembrar e celebrar a conclusão dos corredores. O efeito foi o oposto: escancarou o abismo entre propaganda e realidade.

O transporte coletivo é hoje o principal calcanhar de Aquiles da gestão Dário Saadi — e, arrisco dizer, supera até a saúde em desgaste cotidiano. A cidade convive com ônibus velhos, quebras constantes, veículos pegando fogo, e uma das tarifas mais caras do país. R$ 6 no bilhete único, R$ 6,50 no vale-transporte, por um serviço que frustra diariamente quem depende dele. Diante disso, “florear” o problema soa como ironia direta ao passageiro.

O resultado foi previsível: uma enxurrada de críticas, educadas e não tão educadas. Quando o tema é sensível, exagerar no tom positivo não comunica — provoca.


Reprodução/Redes Sociais

Com a bola levantada, a oposição entrou em campo. O PT, principal crítico do governo Dário, tem razão ao atacar o transporte e o recente aumento da tarifa. Até aí, nada de novo. O problema é que a mesma sanha por engajamento contaminou também o discurso oposicionista.

Em collab com Pedro Tourinho, presidente municipal do partido e pré-candidato a deputado, o PT publicou comparações irreais sobre o que seria possível fazer com o dinheiro da passagem. Pastel e caldo de cana em um dia, cinema e pizza em uma semana. E o auge do delírio: a afirmação de que R$ 390, gasto mensal com passagem ida e volta no vale-tranporte, daria para fazer compras no mercado.

Em que país quem concebeu isso vive? Em Campinas, o custo da cesta básica fechou 2025 em R$ 782,81, com inflação local de 5,27%. Quase o dobro do valor citado. É impossível não perguntar: o PT de Campinas não acompanha o próprio partido, que vê o presidente Lula sofrer desgaste justamente pela alta persistente dos alimentos? Não custa lembrar a infame frase de Lula em fevereiro do ano passado: “produto tá caro, você não compra”.


Reprodução/Redes Sociais

O resultado é constrangedor. Situação e oposição tropeçam no mesmo ponto: a incapacidade de lidar com a realidade concreta da população. De um lado, borboletas sobre um sistema em colapso. Do outro, contas de mercado que não fecham nem no Excel.

O transporte coletivo é sério demais para virar peça de marketing fantasioso — ou meme involuntário de oposição descolada da vida real. O passageiro quer ônibus que funcione, tarifa justa e respeito. Não quer poesia, nem ficção.

No fim, fica a sensação incômoda de que o debate público foi sequestrado por estratégias de engajamento que só geram vergonha alheia.

Deixa acontecer naturalmente


Divulgação/CMC

Às vezes, a política prefere o conforto do tempo à coragem do gesto. No PL de Campinas, “deixa acontecer naturalmente” não é verso emprestado à toa: o partido atravessou a última parte de 2025 sem mover uma palha para retirar Otto Alejandro da liderança, mesmo sob avalanche de acusações e um processo de cassação por suposta violência doméstica. O cálculo foi simples — e frio. Havia acordo de rodízio anual, o ano estava no fim, e qualquer intervenção seria um esforço desnecessário.

O relógio resolveu o que a política evitou. A virada para 2026 promove automaticamente a troca, e Nick Schneider assume a liderança da bancada, com Debora Palermo na vice. Sem ruptura, sem autocrítica, sem explicações públicas. O PL muda o nome na placa e segue adiante.

Sobre Otto, o capítulo ainda não foi oficialmente fechado. No fim do ano passado, o relatório da Comissão Processante pediu o arquivamento do caso, decisão que ainda depende de ratificação do plenário — algo que deve ocorrer apenas quando os “nobres” parlamentares retornarem do recesso. Até lá, o silêncio institucional funciona como anestesia política.

A formalidade do anúncio não esconde o subtexto. A liderança partidária é peça-chave: representa a bancada, orienta votos, articula com a Presidência e fala pelo grupo em plenário. Trocar o líder sem enfrentar o desgaste do caso anterior é uma saída pragmática, mas deixa no ar a pergunta incômoda: o PL virou a página ou só empurrou o livro para a prateleira de cima?

Nick, em sua primeira fala como líder, adotou o tom esperado — agradeceu aos colegas (Guilherme Teixeira, Bene Lima e o próprio Otto Alejandro) e reforçou valores e tamanho do partido. Nada além do script. O desafio, porém, não é retórico. É político.

Porque a troca resolve o constrangimento imediato, mas não elimina a memória do processo. O PL optou por não intervir quando a crise estourou e deixar o calendário operar a limpeza. Funciona no curto prazo. No médio, cobra coerência. Especialmente de um partido que se vende como guardião de valores.

Em 2026, Nick Schneider lidera uma bancada numerosa e barulhenta. Terá tempo de fala, capacidade de agenda e responsabilidade de costurar posições. Se a nova liderança quiser marcar diferença, precisará ir além da formalidade da troca — e demonstrar que mudança não foi apenas burocrática.

Por ora, o PL muda sem mudar. Resolve o problema do presente, adiando o acerto de contas com o passado.

  • Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br

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