AMEAÇAS EM AVAÍ

Indígenas de Araribá são ameaçados após eleição de 2026

Por Priscila Medeiros | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Malavolta Jr/JC Imagens
Indígenas da Terra de Araribá
Indígenas da Terra de Araribá

Indígenas da Terra Indígena de Araribá, em Avaí (39 quilômetros de Bauru), sofreram ameaças após o resultado das eleições presidenciais de 2026. Segundo os caciques Chicão Terena (Aldeia Kopenoti) e Maurício Camilo (Aldeia Ekeruá), e os vice-caciques Jederson Santos (Aldeia Nimuendaju) e Richard Caetano (Aldeia Tereguá), após o fim da eleição, começaram a circular em um grupo de WhatsApp da cidade gravações de áudio com conteúdo ofensivo, discriminatório e ameaçador contra os indígenas moradores da Terra de Araribá.

Além de ofensas, as mensagens mencionam violência armada e o corte das cestas básicas que algumas famílias das quatro aldeias recebem da prefeitura. Nas mensagens trocadas entre dois moradores de Avaí, o suposto autor afirma: “A hora que eles vacilarem, nós vamos meter o fumo nesses caras aí. Pode ter certeza disso. Não vamos dar moleza, não”.

Em outro trecho da conversa, é mencionado o corte das cestas básicas, com a afirmação de que ninguém poderia interferir: “Não tem prefeito, não tem ninguém aí que pode impedir, tá bom? Temos que fazer alguma coisa pelo nosso município”.

De posse das gravações, as lideranças das quatro aldeias acionaram a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), que apresentou uma representação criminal e notícia de fato, datada de 27 de outubro de 2026, em Brasília, direcionada a quatro órgãos: Ministério Público Federal (Procuradoria em Bauru), Ministério Público Eleitoral (PRE-SP), Polícia Federal (Superintendência em São Paulo) e Ministério Público do Estado de São Paulo (Promotoria com atribuição sobre Avaí).

Entre os pedidos apresentados na representação, estão a instauração de procedimentos de apuração em cada órgão; a identificação do autor e dos interlocutores, bem como de eventuais vínculos com a Prefeitura de Avaí; a apuração de possível relação entre as declarações e tentativas de restringir o acesso dos indígenas a políticas públicas; e a adoção de medidas preventivas de proteção às comunidades da Terra Indígena de Araribá, com preservação da identidade de possíveis vítimas e informantes.

Para o cacique Chicão Terena, a eleição foi um processo democrático e o respeito deve prevalecer. “Temos de respeitar o próximo, o direito à cidadania e ao processo democrático. A gente orienta a nossa comunidade, a nossa juventude, a ter esse respeito à democracia e ao próximo, e espera essa conscientização da sociedade para que a gente possa ter uma harmonia no nosso país”, friza Chicão.

Procurada pela reportagem, a prefeita de Avaí, Hellen Fernandes Rodrigues (PSD), informou que os áudios “tratam-se de declarações profundamente infelizes e descabidas, proferidas por um munícipe no seio de um grupo particular. Como já tive a oportunidade de manifestar publicamente, repudio de forma veemente e categórica qualquer ato de discriminação ou preconceito direcionado aos nossos irmãos indígenas. Expresso-lhes meu mais profundo e sincero respeito, lembrando que sempre pautei minha atuação na busca contínua por melhorias que elevem sua qualidade de vida”.

“A falaciosa informação referente ao corte do fornecimento de cestas básicas adveio, de igual modo, das manifestações desse mesmo cidadão. Em um ato de insensatez, ele tentou usurpar a figura da Administração Pública para ameaçar a supressão de benefícios, uma hipótese absolutamente incogitável, que jamais se concretizará. Ressalto que tal indivíduo carece de qualquer legitimidade, mandato ou prerrogativa para falar ou responder em nome do Poder Executivo Municipal”, destaca Hellen.

“A Prefeitura não proferiu nem compactuou com quaisquer ameaças; pelo contrário, as informações propagadas são inverdades que não condizem com a postura da atual gestão. Importa frisar que todo esse imbróglio chegou ao meu conhecimento estritamente por vias informais, por meio de munícipes que nos repassaram o conteúdo. Até o presente momento, a prefeitura não foi instada, notificada ou procurada por qualquer órgão oficial”, informa a prefeita.

Segundo a prefeita, toda a logística de suprimentos destinada às comunidades, que engloba tanto as cestas básicas quanto os gêneros alimentícios para a merenda escolar, é conduzida com inexcedível profissionalismo. “Os produtos chegam devidamente embalados e lacrados pelas empresas fornecedoras. Ademais, os profissionais incumbidos da entrega desses insumos são servidores de ilibada responsabilidade, que sempre devotaram o máximo respeito aos nossos irmãos indígenas, jamais proferindo qualquer impropério ou ofensa”, completa a nota.

“Enfatizo minha irrestrita solidariedade aos povos originários, tranquilizando-os de que o nosso trabalho e o nosso amparo continuarão inabaláveis. Coloco-me à inteira disposição para dirimir eventuais dúvidas supervenientes, reafirmando o compromisso irrevogável de seguir servindo a estas comunidades com a máxima reverência, lisura e dedicação”, conclui.

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