A pandemia foi um período difícil e icônico para quem o viveu, emocionalmente carregado de medos e incertezas que fizeram aflorar os comportamentos mais incomuns do ser humano (para o “bom” e para o “ruim”). Também despertou a minha atenção a mudança das características de alguns sintomas e suas doenças.
Recordo-me da quantidade enorme de epicondilites que comecei a tratar na segunda metade de 2021, quando começou a abertura do processo de quarentena e os esquemas de trabalho “híbridos” começaram a se estruturar mais fortemente. Não era uma impressão somente minha, pois conferi com outros colegas médicos e a incidência de pessoas com quadros de dor e inflamação no cotovelo tinha praticamente dobrado em relação ao que estávamos acostumados a tratar
Alguns explicavam que o “home office”, prática laboral no domicílio que tinha se expandido bastante, era praticado em um “mobiliário” que não havia sido pensado para muitas horas de trabalho em computador, o que tecnicamente chamamos de “má ergonomia”. Por conta disso, punhos e cotovelos sofreram mais que o necessário.
A má ergonomia pode ter colaborado, mas o aumento foi muito além do que o esperado para isso. Havia algo mais. Eu fui buscar dentro da teoria psicobiológica, que eu já estudava naquele tempo, o significado subjetivo da articulação do cotovelo e seus sintomas baseado no estudo comparado da nossa estrutura corporal com o de outros mamíferos que vivem em sociedade, como nós.
Para a nossa versão mais “animal e primitiva”, organizada por milhares de anos de evolução, o cotovelo simboliza a nossa capacidade de afastar o que nos desagrada e é uma possante ferramenta para “abrir espaço e avançar” (de uma forma bem agressiva, vocês podem imaginar). Acreditei que a “abertura” gradual da quarentena havia fragilizado nossa percepção corporal e nos colocado em dúvida quanto ao movimento que deveria ser feito dadas à tantas incertezas e perigo com reinfecção, refletindo em inflamações nesta região, as chamadas epicondilites.
Isso ficou comigo e, volta e meia, me confronto com quadros de epicondilite, hoje em frequência mais “normal”, mas, dada a minha lembrança dos tempos pandêmicos, não deixo de pesquisar se com o paciente existe alguma história de insegurança quanto ao avanço e abertura de caminhos, ou mesmo algo que ele queira afastar de si.
Curiosamente, notei no atendimento hoje cedo de um paciente de longa data que estava com a face preocupada e o questionei sobre o que ocorria. Contou-me que tinha uma viagem para Europa na semana que vem, agendada há meses e muito esperada, mas, devido a uma cãibra fortíssima que teve na panturrilha durante uma noite nesta semana, ficou com receio de que “algo” tivesse acontecido com os músculos da perna e estaria incapaz de passear no seu “tour” europeu.
Imediatamente, começou a notar uma dor crescente no cotovelo, com espasmos na musculatura e calor local, sem que tenha feito algum exercício ou trauma com esta articulação. No momento da aplicação ele tinha mais dor no cotovelo que na própria panturrilha “baleada” de cãibra.
Minha aplicação de acupuntura foi para a inflamação do cotovelo e para melhorar a circulação sanguínea das pernas, é claro, mas procurei com ela também acalmar a sua mente e ansiedade, pois elas criavam uma narrativa que o corpo dele entendia que transformava uma viagem de turismo em uma exposição perigosa da própria vulnerabilidade.
Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura, com formação em medicina chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica