Numa dessas entrevistas de rua que circulam aos milhares, um repórter pergunta aos transeuntes se acreditam em Deus, e as negativas se sucedem com naturalidade desconcertante até que uma mulher dispara um seco "Odeio!" e nomeia Jesus Cristo. Ela não critica religião, igreja ou clero, o que seria compreensível em alguém ferido por uma instituição, mas declara odiar uma pessoa. Por que alguém odiaria, sem conhecê-lo, um homem que, segundo os Evangelhos, curou enfermos, tocou leprosos e, na cruz, pediu ao Pai que perdoasse seus algozes? Costuma-se atribuir a perda da fé a um percurso solitário de dúvida, o que muitas vezes procede; aquela recusa, no entanto, tem quase dois séculos, de modo que a mulher, que julga expressar uma opinião própria, não é a autora dessa ideia, mas sua herdeira.
Tudo começou em 1841, quando Ludwig Feuerbach publicou A Essência do Cristianismo e inverteu a primeira página da Bíblia ao sustentar que não foi Deus quem criou o homem à sua imagem, mas o homem quem projetou Deus à própria imagem, como num espelho celeste que amplia ao infinito o que gostaríamos de ser. Em 1844, Karl Marx politizou a tese numa frase que circula mutilada, pois poucos sabem que, antes de chamar a religião de ópio do povo, ele a definiu como "o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração". O trecho completo revela menos desprezo que compaixão por quem buscava consolo no lugar errado, já que, para Marx, a fé aliviava a dor sem tratar sua causa e, prometendo justiça no céu, podia fazer o povo desistir de cobrá-la na terra, razão pela qual mudar a sociedade exigiria tirar a fé do caminho. Coube a Lênin, provavelmente o leitor mais consequente de Marx, levar a tese do papel ao poder, pois, vitoriosa a revolução de 1917, seu governo separou a Igreja do Estado, confiscou bens eclesiásticos e perseguiu o clero, ofensiva que a Liga dos Sem-Deus Militantes ampliaria com o fechamento de igrejas. Fechar templos, todavia, não extinguiu a fé, e muitos passaram a rezar às escondidas. Antônio Gramsci (1891-1937), fundador do Partido Comunista Italiano, ajudou a entender esse limite, pois percebeu que a força domina territórios, mas não conquista consciências, e defendeu, nos Cadernos do Cárcere, uma guerra de posição, lenta, sem armas e sem tanques de guerra, travada na escola, na universidade, na imprensa e na arte. Quando uma visão de mundo ocupa esses espaços por tempo suficiente, deixa de parecer opinião e se torna natural como o ar, fenômeno que Gramsci chamou de Hegemonia Cultural.
Voltemos à calçada. Aquela mulher provavelmente nunca leu Feuerbach, Marx ou Gramsci e talvez nem saiba de onde veio a imagem de Jesus que rejeita. Ainda assim, acredita que chegou a essa conclusão por conta própria. Mas nenhum de nós pensamos completamente sozinhos. Somos influenciados pela cultura ao nosso redor: a escola escolhe o que ensinar, a mídia decide o que destacar e a arte ajuda a definir o que admiramos ou desprezamos. Quando ambientes acadêmicos tratam quem pensa diferente com hostilidade e filmes e livros costumam apresentar o cristão como alguém retrógrado, a rejeição à fé chega até nós pronta — embora pareça uma escolha inteiramente livre.
Saber como uma pessoa chegou a uma crença não prova que essa crença seja verdadeira. É justamente aí que a ideia de Feuerbach encontra três problemas. Primeiro, se Deus fosse uma imagem criada pelo homem, por que colocar no centro da fé um homem pobre, torturado e crucificado? Segundo, a fé cristã não produziu apenas conformismo: muitos dos primeiros cristãos, incluindo escravos, mulheres e excluídos, enfrentaram prisão e morte por se recusarem a adorar o imperador de Roma. Terceiro, o cristianismo contrariava a cultura de seu tempo e, mesmo sem exército ou poder político, espalhou-se por todo o Império Romano.
Como não quero que o acaso de nascer em certa família ou cultura seja a razão derradeira da minha fé, olhei para o espelho de Feuerbach e não vi meus desejos, mas Jesus, um homem que eu jamais inventaria, que desafia minhas expectativas e me chama a segui-lo, não para confirmar o que eu pensava, mas para me confrontar, me transformar e me oferecer o que eu nunca conquistaria sozinho. Feuerbach dizia que criamos Deus à nossa imagem, ideia que ainda ecoa numa calçada qualquer, enquanto a fé cristã afirma o exato oposto, pois não fomos nós que subimos até o divino, mas foi Deus quem desceu até nós..