Depois de 36 anos de vida parlamentar e nove mandatos (quatro como deputado estadual e cinco como federal), o deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania) prepara o encerramento de sua trajetória político/eleitoral. Aos 71 anos, o parlamentar decidiu não disputar um novo mandato, mas afirma que a saída das urnas não significará o afastamento da vida pública. A intenção é continuar participando da formulação de políticas públicas, principalmente em temas como agro sustentável, biocombustíveis, infraestrutura, inovação, empreendedorismo e desenvolvimento regional.
"Estou encerrando um ciclo. Foram quatro vezes candidato a deputado estadual e eleito e, depois, cinco vezes a federal e eleito. Estou completando meu nono mandato. São 36 anos de vida parlamentar. É tempo...", resume Jardim, durante visita ao Café com Política, no JC/JCNET.
O atual mandato na Câmara termina em fevereiro de 2027. Antes de chegar ao Congresso, Jardim construiu uma trajetória na política paulista. Foi secretário de Habitação e secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo e iniciou a vida pública na Secretaria do Interior durante o governo de Franco Montoro.
Na Secretaria da Habitação, informa ter desenvolvido projetos que já incorporavam conceitos hoje associados à sustentabilidade e à participação comunitária, incluindo arborização de conjuntos habitacionais, programas sociais e iniciativas de integração entre moradores e forças de segurança.
Na Assembleia Legislativa, onde exerceu quatro mandatos, participou da elaboração da Constituição Estadual e atuou na defesa da ciência e tecnologia. Também destaca a ampliação dos recursos destinados à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
Outro marco foi sua atuação na Política Estadual de Resíduos Sólidos, tema que posteriormente ganhou espaço também no Congresso Nacional. Reciclagem, economia circular e logística reversa permanecem entre as pautas defendidas pelo parlamentar.
PROJETOS NO CONGRESSO
Na Câmara dos Deputados, Jardim concentrou sua atuação em agricultura, energia, infraestrutura, sustentabilidade e desenvolvimento econômico. Entre os projetos que destaca estão a Lei do Combustível do Futuro, os Fundos de Investimento nas Cadeias Agroindustriais (Fiagros), o marco regulatório do hidrogênio de baixo carbono e propostas relacionadas à infraestrutura e à transição energética.
Se destacou mais recentemente como relator da proposta que criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, com medidas para pesquisa, exploração, beneficiamento, industrialização, rastreabilidade e sustentabilidade.
O objetivo, segundo ele, é evitar que o Brasil repita com os minerais estratégicos um modelo baseado apenas na exportação de matéria-prima. "Não queremos vender o minério. Queremos processar o minério, agregar valor e criar uma cadeia aqui", afirma.
Jardim, que foi premiado diversas vezes entre os deputados federais mais destacados do País, defende que investimentos e tecnologias estrangeiras sejam utilizados para desenvolver essa cadeia produtiva, mas com instalação de etapas de beneficiamento e processamento no país.
A proposta também prevê mecanismos de rastreabilidade e sustentabilidade, que o deputado relaciona ao combate ao garimpo ilegal e à prevenção de acidentes ambientais. Ele cita ainda a chamada mineração urbana, com reaproveitamento de componentes presentes em equipamentos eletrônicos e outros produtos descartados.
"CONSTRUINDO PONTES"
Ao fazer um balanço da carreira, Jardim aponta a capacidade de diálogo como seu principal legado. Ele afirma ter buscado construir acordos entre diferentes correntes políticas, inclusive em períodos de forte polarização.
"Eu acho que um bom resumo é 'construindo pontes'", afirma. A expressão também deverá dar nome ao livro de memórias que prepara. Entre as "pontes" que considera ter construído estão a aproximação entre produção agropecuária e preservação ambiental, entre setor público e iniciativa privada e entre diferentes correntes ideológicas.
"Chega de radicais, é hora dos construtores", resume. Para Jardim, projetos como o Combustível do Futuro, a legislação de minerais críticos e propostas de infraestrutura demonstram que temas estratégicos podem reunir parlamentares de diferentes campos.
"Você ter ideias não é ruim. O problema é defender as ideias de uma forma radical e sem disposição de ouvir o outro lado. Isso impõe à sociedade um preço muito alto", afirma.
O deputado também avalia que o Congresso ampliou seu protagonismo na formulação das grandes mudanças legislativas do país. Como exemplos, cita as reformas trabalhista, previdenciária e tributária, que, em sua avaliação, tiveram forte participação do Legislativo.
Mesmo fora do Parlamento, o agronegócio deverá continuar entre suas principais áreas de atuação. Jardim defende um modelo de produção sustentável e rejeita a ideia de que preservação ambiental e agricultura sejam incompatíveis. "Eu nunca aceitei que preservação se opõe à produção, que agro se opõe à questão do meio ambiente", afirma.
Entre os desafios para o setor, cita a ampliação do seguro rural, novas fontes de financiamento, inovação tecnológica, logística e armazenamento. Para ele, o país precisa reduzir as perdas no transporte e ampliar ferrovias, hidrovias e estruturas de armazenagem.
A transição energética também será uma prioridade. Jardim continuará defendendo etanol, biodiesel, biogás, biometano e combustíveis sustentáveis para aviação e transporte marítimo. "Eu sou entusiasta da questão dos biocombustíveis", afirma.
Na avaliação do deputado, o Brasil tem condições de ampliar sua influência internacional no setor e deve trabalhar pela criação de referências globais para combustíveis renováveis. "Esse caminho é o caminho que vai crescer e o Brasil tem tudo para ser líder disso", diz.
PPPS E INFRAESTRUTURA
Outra bandeira que levará para a próxima etapa é a utilização de Parcerias Público-Privadas (PPPs) e concessões para ampliar investimentos em infraestrutura. Para Jardim, as limitações fiscais do setor público tornam necessário ampliar a participação privada em grandes projetos. "O único jeito de você conseguir investir são concessões e PPPs", afirma. O deputado também defende mudanças na legislação para tornar esses instrumentos mais eficientes e diz estar insatisfeito com a demora do Senado na análise de uma proposta que busca aperfeiçoar as regras do setor.
SUCESSÃO POLÍTICA
Apesar de deixar a disputa eleitoral, Jardim já escolheu quem ocupará parte do espaço político construído ao longo de sua trajetória. O deputado trabalha pela eleição de Marco Vinholi (Republicanos) para a Câmara Federal. A relação entre os dois, segundo Jardim, começou ainda na juventude de Vinholi e se fortaleceu por experiências na política paulista e por convergências em temas como desenvolvimento regional, agro, empreendedorismo, inovação e participação dos municípios.
Jardim compara a sucessão a uma corrida de revezamento."É o mesmo compasso, o mesmo estilo, as mesmas bandeiras: agro sustentável, concessões e PPPs, empreendedorismo, apostar na ciência e na inovação, ser do interior, defender a democracia participativa e fortalecer os municípios", afirma.
MUNICÍPIOS E FUTURO
A descentralização de recursos também aparece entre as prioridades que Jardim gostaria de ver retomadas pelo Congresso. Para ele, estados e municípios receberam novas responsabilidades nas últimas décadas, mas não tiveram a correspondente ampliação das receitas.
Aos prefeitos e vereadores que acompanharam sua trajetória, Jardim deixa um agradecimento e uma recomendação: ir além da administração cotidiana e pensar em estratégias de desenvolvimento para as cidades. "Não só conseguir um recurso aqui e acolá, mas pensar com essa envergadura para o futuro", afirma.
A saída da Câmara, portanto, não representa uma retirada da política. "Não vou abdicar de continuar tendo participação nos debates que acontecem na sociedade e na formulação de políticas públicas. Não precisa ter um mandato parlamentar para participar disso", afirma.
Jardim pretende atuar em institutos, entidades e debates relacionados a agro sustentável, biocombustíveis, PPPs e concessões, inovação e empreendedorismo. Também acompanhará a regulamentação da reforma tributária e discussões ligadas ao setor produtivo e ao cooperativismo.
Ao resumir os nove mandatos, Jardim volta à imagem que considera síntese de sua trajetória: a construção de pontes. "Uma ponte entre a preservação e a produção. Uma ponte entre o público e o privado. Uma ponte entre as diferentes ideologias, mostrando que é possível estabelecer convergências. E uma ponte entre o Congresso e a sociedade."