OPINIÃO

Banco Central deve manter a cautela

Por Reinaldo Cafeo | O autor é diretor regional da Ordem dos Economistas do Brasil
| Tempo de leitura: 3 min

O Banco Central americano elevou a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, elevando a banda de flutuação para 3,75% a 4,00% ao ano. Aqui no Brasil o Banco Central reduziu a taxa básica em 0,25 ponto percentual, saindo dos 14% para 13,75% ao ano.

As decisões foram tomadas em um cenário econômico internacional e doméstico que recomenda prudência. Nos Estados Unidos, a inflação continua sendo motivo de atenção e os juros elevados reforçam a necessidade de uma política monetária cuidadosa. Esse ambiente externo importa muito para o Brasil, especialmente por seus efeitos sobre o fluxo de capitais e o comportamento do dólar.

Por aqui, tivemos alívio recente na inflação, um movimento positivo, mas que não significa que o problema esteja definitivamente equacionado. A inflação brasileira continua resiliente em alguns segmentos, e as expectativas para os próximos meses sugerem que o Banco Central não encontrará espaço confortável para promover novas reduções dos juros até o fim do ano.

Há também a questão externa. Quando os juros norte-americanos permanecem atrativos, diminui o incentivo para que investidores assumam riscos em países emergentes. Uma mudança no diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos pode provocar saída ou menor entrada de recursos, pressionando a cotação do dólar.

E dólar mais valorizado não é uma questão apenas do mercado financeiro. Seus efeitos podem chegar à economia real por meio do encarecimento de produtos importados, insumos industriais, combustíveis e outros itens que possuem alguma relação com o mercado internacional. Dependendo da intensidade e da duração do movimento cambial, parte dessa pressão acaba chegando aos preços.

No ambiente doméstico há mais um componente que não pode ser ignorado: *as contas públicas*. A trajetória fiscal brasileira continua no radar dos agentes econômicos porque influencia as expectativas de inflação, o comportamento dos juros de longo prazo, o câmbio e a percepção de risco do País. Quanto maiores as dúvidas em relação à sustentabilidade fiscal, mais difícil se torna o trabalho da política monetária.

Isso ajuda a compreender por que uma queda pontual da inflação não é suficiente para justificar uma postura mais agressiva do Banco Central. A autoridade monetária precisa olhar para frente. Precisa avaliar não somente a inflação corrente, mas as expectativas, o cenário fiscal, o comportamento do dólar, a atividade econômica e, evidentemente, o que ocorre com os juros internacionais. Tudo isso em ambiente de eleições polarizadas.

Nesse contexto, ser conservador não significa ser excessivamente duro. Significa reconhecer que o custo de antecipar uma flexibilização monetária e depois precisar voltar atrás pode ser maior do que o custo de esperar um pouco mais para ter segurança de que a inflação está efetivamente convergindo para a meta.

Para famílias e empresas, juros elevados evidentemente trazem consequências. O crédito fica mais caro, financiamentos pesam mais no orçamento e investimentos podem ser adiados. É justamente por isso que ninguém deseja juros altos por mais tempo do que o necessário. Mas também não interessa à economia brasileira obter um alívio temporário nos juros às custas de uma nova deterioração das expectativas inflacionárias.

O desafio do Banco Central, portanto, é encontrar esse equilíbrio. Com inflação ainda exigindo atenção, incertezas nas contas públicas e um cenário internacional capaz de provocar novas pressões sobre o dólar, a melhor estratégia neste momento parece ser manter a guarda alta.

Reduzir juros é desejável. Reduzi-los de maneira sustentável é ainda mais importante. Por isso, o Banco Central deve manter uma posição conservadora.

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