HISTÓRIAS DE BAURU

Vila Falcão: dos ferroviários às casas de madeira

Por Priscila Medeiros | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Museu Ferroviário Regional de Bauru
Atrás das lendárias oficinas da NOB está a Vila Falcão em formação
Atrás das lendárias oficinas da NOB está a Vila Falcão em formação

A primeira vila de Bauru começou a despontar apenas dez anos após a emancipação política de Bauru (1896), em área além do perímetro urbano, que terminava no Rio Bauru. A Vila Falcão surgiu em terras que pertenciam a Maria Falcão Machado (e não à Igreja, como eram as terras dentro do perímetro urbano), sendo, assim, mais acessíveis aos mais pobres.

Os primeiros registros de moradias datam de 1906, junto à chegada da ferrovia à cidade. Seu crescimento aconteceu quando a sede da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) foi transferida para Bauru, em 1917, e seus funcionários começaram a comprar terras na vila que surgia, não só por serem mais acessíveis, mas também por estarem próximas aos galpões e oficinas da NOB. Por conta disso, a Falcão ficou conhecida, na época, também como a Vila dos Ferroviários. Muitos dos descendentes destes estão na vila até hoje.

As primeiras moradias eram feitas em madeira pelos próprios ferroviários, em terras que se assemelhavam a pequenas chácaras, com criação de animais. A vila não possuía nenhuma infraestrutura, a não ser uma estrada que servia de ligação com a cidade de Piratininga e as fazendas Val de Palmas e Boa Vista, entre outras.

No início de sua formação, a Vila Falcão era pequena, nada semelhante aos dias atuais. Ela compreendia apenas as atuais vias: avenida Alfredo Maia, as ruas José Bastos, dos Andradas, Bernardino de Campos, Campos Sales, Albuquerque Lins, Altino Arantes, Sabadino Scriptore e Prudente de Moraes; a travessa João Polido e o Córrego do Sobrado.

Somente em julho de 1918 é que a Vila Falcão passou a integrar o perímetro urbano de Bauru e a começar a receber algumas benfeitorias. No entanto, a ligação com o centro era precária e difícil, já que não havia ponte sobre o Rio Bauru. Somente em 1932 é que a Prefeitura inaugurou uma precária ponte de madeira sobre o Rio Bauru, ligando a Falcão ao centro.

As primeiras ruas da vila receberam nomes de figuras nacionais e estaduais, tanto do Império quanto da República, como é o caso de Manuel Ferraz de Campos Sales, presidente da República que, quando ocupava o Governo do Estado, assinou, em 1º de agosto de 1896, a lei que mudou a sede do Município de Espírito Santo da Fortaleza para Bauru. Outros exemplos são Bernardino José de Campos, governador do Estado que assinou a lei que criou o Distrito de Paz de Bauru, e Manoel Joaquim de Albuquerque Lins, também governador do Estado, que, em 16 de dezembro de 1910, assinou a lei que criou a Comarca de Bauru.

Com o passar do tempo e o crescimento da Vila, surgiu um pequeno centro comercial, inicialmente dentro do primeiro perímetro do bairro e, aos poucos, expandindo-se junto às novas ruas da vila. Padaria, loja de fazendas, açougues, jardim, bilhares, serraria, alfaiatarias, dentistas, farmácia, cinema São Raphael e a Cooperativa da NOB, cujo prédio existe até hoje no cruzamento das ruas Albuquerque Lins e Silveira Martins. Outro prédio que ainda existe e está sendo reformado é o que abrigou por muitos anos a Casa Belmont (um armazém de secos e molhados), na esquina das ruas Prudente de Moraes e Campos Salles. A rede Confiança de Supermercados, que possui oito lojas em Bauru e em mais cinco cidades, teve seu início no bairro na década de 1980.

Pioneirismo na educação

A Falcão foi pioneira na área da educação da cidade, recebendo a primeira faculdade de Bauru, a Instituição Toledo de Ensino (ITE), em 1950, e a Fundação Educacional de Bauru, em 1966, que em meados dos anos 1980, virou Universidade de Bauru (UB) e posteriormente se tornou a Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp). Hoje, o prédio é ocupado pela Delegacia Regional de Educação Estadual. As áreas para a construção das duas instituições foram doadas por Daniel Pacífico.

O bairro também recebeu o segundo grupo escolar de Bauru, que primeiro foi instalado na esquina das ruas dos Andradas e Bernardino de Campos. Posteriormente, foi transferido para o quarteirão 11 da rua Campos Sales e recebeu o nome "Luiz Castanho de Almeida", que foi o primeiro diretor da unidade escolar.

A vida social e cultural sempre foi um ponto forte do bairro. Em 1929, foi fundada a Sociedade Musical União Operária, formada por ferroviários da Noroeste, que teve os instrumentos cedidos pela Prefeitura. Na década de 1950, instalou-se na avenida Alfredo Maia o Cine São Raphael. Na década de 1970, surgiu a base da primeira escola de samba da cidade, a Mocidade Independente da Vila Falcão, oficialmente fundada em 25 de janeiro de 1976. Atualmente, ela se chama Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Unida da Vila Falcão.

No início da década de 90, o bairro teve um bloco carnavalesco que foi campeão várias vezes do Carnaval bauruense, o Pé de Varsa. O bloco chegou a ter 600 integrantes, a maioria pertencente à Escola de Samba Mocidade Independente.

ÁREAS ALAGADAS

Os alagamentos da esplanada ocasionados pelo Rio Bauru, que afeta a rua Alfredo Maia, são antigos, anteriores mesmo à formação do bairro. As enchentes chegaram a interromper a circulação de trens da Paulista e da Sorocabana e isolavam a Vila Falcão do centro da cidade, uma vez que encobriam a ponte de madeira. O acesso ao bairro em épocas de enchentes só foi resolvido com a construção do Viaduto Mauá, no final da década de 1950.

Em 1982, é inaugurado o "Gigante do Vale", viaduto de quase 300 metros, que ligou a avenida Duque de Caxias à Falcão e recebeu o nome Antônio Eufrásio de Toledo, fundador da ITE.

 

Vila Falcão já com mais casas com as oficinas da NOB ao lado (foto: Museu Ferroviário Regional de Bauru)
Vila Falcão já com mais casas com as oficinas da NOB ao lado (foto: Museu Ferroviário Regional de Bauru)

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