SUPREMO

Entenda a crise no STF, provocada por revelações com Vorcaro

Por Luana Lisboa e Marina Costa | da Folhapress
| Tempo de leitura: 7 min
Carlos Moura/SCO/STF
Ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça durante sessão plenária
Ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça durante sessão plenária

As investigações sobre o Banco Master por fraudes ao sistema financeiro expuseram conexões entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e figuras públicas, como deputados, senadores e magistrados, e culminaram em uma crise que especialistas apontam como sem precedentes na história do STF (Supremo Tribunal Federal).

O embate coloca frente a frente os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça, divide o plenário em alas, reacende a discussão sobre um código de ética para o Supremo e ganha desdobramentos na disputa eleitoral.

A menos de uma semana do ato de 7 de Setembro, aliados de Flávio Bolsonaro (PL) passaram a unir críticas a Lula (PT) e a Moraes sob o mote "fora, Lula; fora, Moraes", e bolsonaristas como Eduardo Bolsonaro, Nikolas Ferreira e o pastor Silas Malafaia intensificaram pedidos de impeachment e prisão de Moraes.

Lula, sem citar os ministros, disse nesta sexta (4) que "ninguém, em nome da democracia, pode utilizar o cargo que tem em benefício pessoal". O petista tenta não sofrer desgaste de imagem por causa da crise do STF, Tribunal com o qual teve proximidade durante os anos de seu atual mandato.

Mendonça retira sigilo de relatório da PF sobre Moraes

O novo capítulo da crise começou na terça-feira (1º), com a revelação de que o dono do Master mantinha contato com uma pessoa apontada como sendo o ministro Alexandre de Moraes. As mensagens vieram à tona depois que Mendonça pediu manifestação da PGR (Procuradoria-Geral da República) sobre um relatório enviado pela Polícia Federal ao STF.

Os diálogos, recuperados do celular do banqueiro, indicam que ele perguntou a Moraes, dois dias antes de ser preso, em 17 de novembro de 2025, se deveria deixar o país. Mostram ainda que o ministro fez edições num contrato de R$ 131 milhões entre o Master e o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, e que os dois se encontraram pelo menos seis vezes desde 2024.

Na avaliação de Mendonça, as mensagens comprovam que o banqueiro sabia antecipadamente da decisão de sua prisão e buscava "intervenção junto a autoridades públicas envolvidas nos respectivos processos decisórios".

Gonet pede anulação do relatório

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, reagiu horas depois pedindo a anulação do relatório da PF. Segundo ele, Mendonça "se valeu da polícia" para "impor a investigação" de Moraes, exercendo "atividades que não lhe foram assinaladas".

Um ministro do STF só pode ser investigado após autorização dos próprios colegas da corte. Para Gonet, o relatório produzido pela PF a pedido de Mendonça constitui, por si só, uma investigação, e por isso, deveria ser invalidado.

Gonet, porém, também é citado nas mensagens de Vorcaro --um advogado do banqueiro chegou a encaminhar a ele diálogos atribuídos ao procurador-geral, e o filho de Gonet aparece no material. Ele não comentou publicamente as citações a seu respeito.

Mendonça recebeu Vorcaro para conversa

Na quarta (2), o ICL Notícias revelou que Mendonça recebeu Vorcaro para uma conversa em março de 2025. A aproximação foi articulada pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). Mensagens extraídas do celular do dono do Master mostram que ele recebeu de Ciro uma fotografia ao lado de Mendonça e que o advogado levou o ministro a uma alfaiataria.

"Fala, Vorcarinho, trabalhando por você! Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno", disse Ciro em áudio enviado em 8 de fevereiro de 2025.

Em nota, Mendonça afirmou que o encontro tratou de um processo sobre precatórios de interesse do Master e que votou contra o empresário no julgamento.

Especialistas ouvidos pela Folha avaliaram que a conduta de Mendonça de determinar diretamente à PF a identificação do interlocutor de Vorcaro, sem levar o tema ao plenário, também foi problemática, ainda que a maioria reconheça que a apuração sobre Moraes deveria seguir adiante. Não há consenso entre eles sobre se isso torna o relatório da PF nulo.

Moraes pede a Fachin investigação contra Mendonça

Em resposta à ação de Mendonça, Moraes pediu nesta quinta (3) ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, a abertura de uma investigação de Mendonça por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução dos casos Master e INSS (Institutos Nacional do Seguro Social)

Segundo Moraes, o colega direcionou alvos "por motivos pessoais e políticos" -ele próprio e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, seriam os alvos- e chegou a ameaçar afastar o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e Gonet.

No mesmo dia, o presidente do STF também determinou que Mendonça e Moraes -além do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, ambos mencionados em trocas de mensagens de Vorcaro- deem informações em até cinco dias sobre o relatório da PF que trata das mensagens que teriam Moraes como interlocutor.

Fachin retira pedido do inquérito das Fake News

Nesta sexta (4), Fachin retirou o pedido de Moraes contra Mendonça do inquérito das fake news --onde havia sido protocolado-- e o incorporou ao mesmo processo que já tratava do relatório sobre as mensagens.

Abriu também prazo de cinco dias úteis para a PGR se manifestar sobre a admissibilidade do pedido e outros cinco para Mendonça se defender, caso queira. Segundo o despacho, as medidas não antecipam juízo sobre o mérito.

Ao lado de Lula no Palácio do Planalto, Fachin defendeu, como resposta à crise, a aprovação de um código de ética para os ministros e o fim do inquérito das fake news -hoje relatado por Moraes-, além da modernização do sistema de Justiça. "Não haverá precipitação, mas tampouco omissão", disse.

Fachin defende a criação do código, que ainda é centro de uma divergência interna no tribunal e hoje está sob a responsabilidade da ministra Cármen Lúcia, que deve entregar a primeira versão do texto depois das eleições.

Plenário se divide

Segundo apuração, o único apoio certo a Mendonça no plenário, neste momento, é do ministro Luiz Fux.

Do lado de Moraes estão os ministros Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes, que propôs a Fachin vetar delegados da PF nos gabinetes de ministros, alegando risco de interferência nas investigações.

As dúvidas recaem sobre o ministro Kassio Nunes Marques, a ministra Cármen Lúcia e o próprio Fachin. Na divisão atual da corte, os três estão no grupo de Mendonça -em defesa, por exemplo, da implementação de um código de conduta. Seus interlocutores, contudo, dizem que o alinhamento ao relator do Master não é irrestrito.

A ala pró-Moraes defende que Fachin afaste Mendonça temporariamente da condução dos casos Master e INSS enquanto durar a apuração sobre ele, para evitar nulidades futuras. Pessoas próximas a Mendonça rejeitam a ideia e cobram que o fim do inquérito das fake news também entre na negociação.

Quando a crise começou

Os questionamentos sobre a corte começaram em dezembro de 2025, quando o ministro Dias Toffoli se tornou relator do caso Master no STF após a defesa de Vorcaro pedir que as investigações sobre o ex-banqueiro fossem levadas ao Supremo devido à ligação com políticos com foro por prerrogativa de função, chamado de foro especial.

A atuação do magistrado acumulou críticas. No mesmo mês em que assumiu a supervisão do inquérito, Toffoli determinou siglo máximo à solicitação da defesa do ex-banqueiro de que as apurações fossem transferidas ao STF sob o argumento de que a ação era necessária para evitar vazamentos.

Com a apreensão do celular de Vorcaro, a PF teve acesso a mensagens em que o dono do Master e seu cunhado, Fabiano Zettel, discutiram pagamentos a uma empresa que tem Toffoli como sócio. A corporação aponta um conflito de interesses direto, embora o ministro afirme que os valores recebidos são lícitos e declarados.

A PF apontou em 11 de fevereiro, após encontrar as menções a Toffoli nos diálogos entre Vorcaro e Zettel, a suspeição do magistrado como relator das investigações sobre o Master.

O ministro deixou a relatoria no dia seguinte, depois de uma reunião fechada de mais de duas horas com os demais colegas do STF, na qual ouviu apelos para que se afastasse do caso em nome da preservação do tribunal, que também passou a ser alvo de questionamentos. A supervisão do inquérito foi atribuída a Mendonça.

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