Ibitinga - A combinação de custos de produção elevados, dependência de matérias-primas importadas, oscilações do dólar e um cenário internacional mais incerto impõe novos desafios às empresas do setor de bordados e enxovais de Ibitinga (90 quilômetros de Bauru). As recentes medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros adicionam mais um componente a esse ambiente, ainda que seus efeitos não sejam sentidos da mesma forma por todas as empresas do polo.
Entre os empresários ouvidos, a percepção é de que, mais do que um impacto direto das tarifas norte-americanas, preocupam os possíveis reflexos sobre a economia, o consumo e uma cadeia produtiva fortemente dependente de matérias-primas vindas do exterior.
Para Ailton Pereira, CEO da Lavive, empresa com 35 anos de história no setor têxtil, o mercado global já apresenta sinais de desaceleração, e mudanças no comércio internacional acabam chegando, de alguma forma, ao mercado brasileiro.
"Essas tarifas dos Estados Unidos afetam a economia brasileira e, consequentemente, também o consumo interno. E, na questão da matéria-prima, temos um cenário diferente porque a maioria do que abastece Ibitinga vem de países como China, Paquistão e Índia… Então, com a Guerra no Irã, e o aumento do preço do petróleo, consequentemente há aumento no preço da matéria-prima", explica.
Diante desse contexto, a estratégia tem sido estreitar a relação com fornecedores, antecipar negociações e buscar alternativas capazes de preservar a competitividade. "Estamos fazendo parcerias melhores com bons fornecedores, principalmente na China e em outros países, tentando antecipar algumas situações e negociar de forma mais firme para conseguir o melhor preço possível. E também precisamos trazer inovação, porque é por meio dela que conseguimos fazer produtos diferenciados", acrescenta Ailton.
Na Juma Enxovais, empresa com mais de 40 anos de atuação no setor, o fundador e proprietário, Osvaldo Moraes, avalia que as tarifas dos Estados Unidos não provocaram, até agora, impacto direto relevante para a empresa, justamente porque sua operação está mais ligada à importação do que à exportação.
A preocupação maior está em outros fatores. “O tarifaço não nos atrapalhou tanto. O que mais prejudicou mesmo foi a alta do dólar. Hoje dependemos de muita mercadoria importada, principalmente de tecido. A maior parte vem de fora, especialmente da China. Se acontece um problema lá, nós temos um problema aqui, porque sem a importação de tecido também não temos produção”, afirma.
Segundo Osvaldo, a busca por eficiência passa ainda pela automação, pela revisão de processos e de matérias-primas e pela manutenção de preços competitivos. "Nosso custo de produção não é barato, então temos que melhorar o processo para ter uma produção melhor. Estamos buscando automação, melhoria da qualidade e preços atraentes", afirma.
Competir além do preço
Se o cenário econômico amplia a pressão sobre os custos, empresários do setor também enxergam outro desafio: evitar que uma competição excessivamente baseada em preço comprometa a percepção de qualidade construída pelos produtos de Ibitinga ao longo das últimas décadas.
Ailton, da Lavive, relembra que o município já enfrentou esse problema no passado. “Quando começamos a trabalhar, em 1995 e 1996, existia uma visão de que o produto de Ibitinga não tinha qualidade, não respeitava tamanho ou padrão. Era difícil até abrir mercado. Tivemos que trabalhar muito para as pessoas conhecerem o produto e perceberem que ele realmente era bom, que respeitava tamanho, qualidade e padrão. Foi assim que fomos conquistando espaço”, conta.
Para ele, o avanço do e-commerce e dos marketplaces trouxe oportunidades, mas também intensificou a disputa pelo menor preço. “Cada vez mais se busca baixar o preço sem pensar na qualidade. Isso preocupa. Se você pegar os índices de devolução, é estrondoso. A saída é trabalhar em cima da qualidade. É preciso ter padrão na hora de desenvolver um produto, respeitar metragem, informar a especificação correta do tecido, quantidade de fios, etc. Quando você tem um produto consolidado, mantém o padrão por muito tempo e constrói um nome no mercado, fica mais fácil competir”, destaca.
É nesse contexto que a busca pela Indicação Geográfica (IG) do Bordado de Ibitinga ganha relevância. Mais do que associar um produto ao território, o movimento abre espaço para uma discussão sobre padrões, reputação, identidade e os atributos capazes de diferenciar a produção local em um mercado cada vez mais disputado.
Osvaldo também acredita que Ibitinga reúne vantagens que podem ser mais bem exploradas. “Somos privilegiados por estarmos em uma região com boas rodovias, facilidade de acesso e transporte. Mas também precisamos divulgar mais a nossa cidade e os nossos produtos e continuar melhorando a qualidade. Às vezes não é só o preço que importa; existe muita gente que preza pela qualidade”, declara.
Para o empresário, o próprio desempenho recente da Feira do Bordado reforça a importância dessa visibilidade. “A feira foi um sucesso porque foi bem divulgada. Eu acho que o caminho é por aí", avalia.
Para Janaia Fabri, da CPL do Bordado de Ibitinga, o cenário reforça um desafio estratégico para toda a cadeia: aumentar a eficiência e a competitividade sem transformar o preço no único diferencial. "Qualidade, design, inovação, fortalecimento da reputação e valorização da origem passam, assim, a ocupar papel cada vez mais importante na construção do futuro de um setor que carrega o nome de Ibitinga para todo o país", pontua.