OPINIÃO

Há dignidade no trabalho. E no futebol?

Por Wellington Anselmo Martins |
| Tempo de leitura: 1 min

Quando a Copa interrompe a rotina do trabalho, há algo a mais do que mera suspensão da produtividade para assistir futebol. Trata-se de recordar que a vida humana não cabe totalmente no expediente.

Esportes, artes e religiões podem, infelizmente, ser usados por poderes autoritários, mercados consumistas e paixões das mais alienadas. Mas também pertencem legitimamente ao mundo da vida — "lebenswelt", como dizem filósofos como Habermas —, esse tecido humano de sentidos, afetos, memórias, ritos e encontros no qual uma sociedade respira.

O trabalho é indispensável para o homem, pois pelo trabalho garantimos o pão de cada dia. Mas o trabalho não é absoluto. O trabalho também pode alienar, domesticar e até escravizar quando se converte na medida única da dignidade humana. Por isso, há algo moralmente legítimo na pausa coletiva para ver um jogo, pois a beleza do futebol pode ser um espaço de lazer e nenhuma sociedade livre vive apenas de eficiência.

O Brasil parando assim por algumas horas no meio do dia revela, na melhor hipótese, que a beleza também pode reivindicar o seu tempo. O problema real, então, não é parar para ver a Copa; o problema seria perder a capacidade crítica diante dela. Contra o fanatismo, é realmente preciso lucidez; contra o produtivismo, é preciso resistir com festa; contra a utilidade total e individualista, é preciso de mundo da vida, mundo compartilhado e afetuoso.

Portanto, quando o esporte rompe o trabalho, às vezes pode haver aí uma fuga da realidade, mas também um contrapeso civilizatório: a lembrança humanizadora, já bem cantada no Brasil, de que "a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte".

 

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