BAURU

Problemas na saúde revelam décadas de falhas de gestão em Bauru

Por Priscila Medeiros | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
Priscila Medeiros
Paulo Tambara é especialista em gestão pública
Paulo Tambara é especialista em gestão pública

Os problemas enfrentados pela saúde pública de Bauru ao longo de décadas vão além da superlotação das UPAs e da falta de vagas hospitalares. Para o especialista em gestão pública Paulo Tambara, o cenário é resultado de deficiência administrativa e da ausência de planejamento estratégico que se acumulam há vários governos. Segundo ele, o município falha em fortalecer a atenção primária, considerada a base do Sistema Único de Saúde (SUS). "Não estou fazendo uma crítica partidária nem pessoal. Estou contribuindo como especialista em gestão pública para a minha cidade. Esse problema não começou agora, ele existe há pelo menos 30 anos", afirmou.

Tambara aponta como principal deficiência a baixa cobertura de agentes comunitários de saúde, responsáveis pelo acompanhamento de pacientes com doenças crônicas e pela prevenção de agravamentos. Segundo ele, Bauru possui cerca de 10% do efetivo recomendado para a Estratégia Saúde da Família. "Quando a dona Maria deixa de tomar o remédio da pressão ou o seu João abandona o tratamento da diabetes, eles acabam indo parar na UPA. Se a atenção básica funcionasse, essas pessoas seriam acompanhadas em casa antes de chegarem à internação", explicou.

O especialista também rebate a ideia de que ampliar leitos resolveria a crise. "Só construir mais leitos sem resolver a gestão não muda absolutamente nada. O problema continua chegando na porta da UPA. O que falta não é leito, é gestão", declarou.

Na avaliação dele, a Prefeitura também falha na articulação com o Governo do Estado e instituições de referência da cidade. "Falta gestão com o Estado, falta gestão com os hospitais e falta gestão com a USP. É preciso colocar todos para remar na mesma direção. Hoje, cada um trabalha isoladamente", criticou.

Tambara afirma ainda que as filas para consultas, exames e cirurgias especializadas refletem a falta de planejamento. "Quando uma fila de ortopedia chega a mais de 20 anos de espera, isso deixa de ser um problema operacional. É um problema de gestão", disse.

Ele também critica a transparência dos indicadores da saúde. Segundo o especialista, a divulgação dos tempos de espera é pouco acessível, dificultando o controle social e a cobrança por resultados. "Sem informações claras e objetivas, o cidadão não consegue dimensionar a gravidade do problema nem cobrar soluções efetivas."

Na avaliação de Tambara, enquanto não houver reorganização das contas públicas e prioridade para a atenção básica, a tendência é de agravamento da crise. "É incompetência em cima de incompetência. O município precisa parar de discutir apenas os efeitos e enfrentar a causa do problema. Enquanto não houver gestão eficiente, a população continuará enfrentando filas, superlotação e demora no atendimento", concluiu.

Prefeitura se posiciona - leia nota

"A Secretaria de Saúde informa que tem atuado no fortalecimento da atenção primária, com investimentos na qualificação das equipes, ampliação do acesso aos serviços e reorganização dos fluxos de atendimento. A procura pelas unidades de urgência e emergência envolve desde o aumento da demanda por atendimentos até a disponibilidade de leitos hospitalares para encaminhamento dos pacientes.

A pasta esclarece que mantém o trabalho de ampliação e fortalecimento da Estratégia Saúde da Família, observando os limites orçamentários e a legislação vigente. A composição das equipes é realizada de acordo com a disponibilidade de profissionais e a capacidade financeira do município, sem prejuízo da continuidade da assistência prestada à população.

Bauru mantém diálogo permanente com o Governo do Estado, hospitais, universidades e demais instituições que integram a rede regional de saúde. O enfrentamento dos desafios da assistência ocorre de forma articulada entre os diferentes entes e prestadores de serviços, respeitando as responsabilidades de cada esfera de gestão do Sistema Único de Saúde (SUS).

A Secretaria de Saúde entende que a demanda por consultas, exames e procedimentos especializados, por vezes, supera a oferta disponível em diversas especialidades, uma realidade observada em diversas regiões do País. O município tem trabalhado continuamente para ampliar o acesso, reduzir o tempo de espera e aperfeiçoar os mecanismos de gestão e divulgação das informações relacionadas aos serviços de saúde."

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