OPINIÃO

A ignorância machista na política

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista
| Tempo de leitura: 3 min

A ex-primeira dama Michele Bolsonaro denunciou seguidos ataques e humilhações pela ala machista da política, como a grotesca declaração de que "mulher vota mal". Abriu uma crise no núcleo da candidatura de Flávio Bolsonaro que vai além de uma simples querela de família para se transformar numa fratura política. Isto somente a quatro meses da meses da eleição.

Michele considerou-se "maltratada, desrespeitada e humilhada" pelo enteado, em vídeo de 27 minutos postado na rede social. A senhora Bolsonaro, que presidia o PL Mulher, encarnava a luta por espaço dentro da direita, com intenções claras de construir uma plataforma política que possa abrigar as mulheres. Ela é uma figura forte no meio evangélico e nos movimentos em defesa do tratamento equânime para as mulheres. Agora, há dúvidas se Michele irá disputar uma eleição bastante favorável para o Senado pelo Distrito Federal.

Mesmo depois do senador Flávio Bolsonaro ter pedido "perdão" pelo "mal entendido", as coisas pioraram com as críticas do blogueiro Paulo Figueiredo. Este afirmou, e repetiu, que "as mulheres não sabem votar". Estatísticas da extrema direita norte-americana confirmariam que "as mulheres votam mal, principalmente as solteiras, já que a tendência é as casadas acompanharem o voto do marido". E as que não concordarem "podem arrancar os pentelhos das calcinhas".

As falas misóginas de Paulo Figueiredo provocaram consequências políticas. O senador Flávio Bolsonaro repudiou as declarações do primeiro-amigo e apoiador, afirmando que o jornalista estava completamente equivocado. Figueiredo é neto do ex-presidente da República João Baptista Figueiredo (1979-1985), o último general da ditadura militar. Vive autoexilado em Miami. Seu avô, pelo menos, sancionou a Lei da Anistia, medida que permitiu o retorno ao Brasil do "irmão do Henfil e de tanta gente que partiu num rabo de foguete".

O historiador inglês Peter Burke ("Uma História Global da Ignorância"), constata que ignorância é uma criação social, ausência ou privação de conhecimento, mas "a mente não tem sexo". Historicamente os homens sempre excluíram as mulheres dos meios de adquirir conhecimento a fim de dominá-las. As mulheres foram "escondidas da história". A maioria dos estudiosos quase não mencionam as mulheres. "Os homens ignoram a sua ignorância" - seria o corolário de todo o constatado desde Aristóteles, há 2.400 anos.

Trazendo a coisa para o Brasil dos dias atuais, as pesquisas do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, 2024) apontam que mais da metade dos lares (51,7%) estão sob responsabilidade feminina. Elas que mantém a casa e a família.

É preciso acabar com essa fraude civilizatória, a de achar que o universo masculino é o único detentor da força e da inteligência. Desvincular o feminino da ideia de fraqueza e o trabalho doméstico como "coisa de mulher".

A violência contra as mulheres não é uma característica só do Brasil. Quando Hillary Clinton foi candidata à presidência dos Estados Unidos pelo Partido Democrata, depois de ter sido senadora por Nova York e primeira dama, chegou a ser acusada de uma série de delitos, desde assassinar oponentes até beber sangue de crianças. Durante a pandemia da Covid 19, levantaram a suspeita do público a respeito de vacinas. Outro boato afirmava que as vacinas implantam microchips que permitem que qualquer pessoa seja rastreada.

O presidente Trump, ao qual o clã Bolsonaro presta vassalagem, sofre de uma ignorância em sua forma aguda, a de nem mesmo saber que ele nada sabe. A resposta de Trump e de Jair Bolsonaro à crise do coronavírus de 2020 foi a de recusar a leva-la a sério, ignorar fatos convenientes, criticar epidemiologistas e defender remédios de eficácia duvidosa como a hidroxicloroquina.

O filósofo austríaco Karl Popper escreveu que essa discussão se concentra em três grandes tópicos: não saber, não querer saber e não querer que outras pessoas saibam.

 

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