Há lugares onde o amor é proibido e o ódio liberado? Essa parece ser uma contradição moral silenciosa em alguns contextos institucionais modernos: eles temem os vínculos que tornam as pessoas menos manipuláveis, mas promovem as forças que as tornam solitárias.
O amor, a amizade, a lealdade e o cuidado são muitas vezes tratados como riscos: risco de favoritismo, risco de distração, risco de conflito, risco de descontrole... A hostilidade, ao contrário, raramente recebe esse nome. A hostilidade
aparece domesticada como competição, produtividade, individualismo, cobrança, resiliência, ambição. Assim, a ternura hoje precisa justificar-se; enquanto a dureza parece natural. O problema obviamente não está em toda regra que limita relações íntimas no trabalho, pois há situações em que a norma protege ncontra abuso, assédio, autoritarismo e injustiça. O problema ocorre quando a instituição protege-se do afeto mais do que protege as pessoas da crueldade.
Uma organização eticamente saudável não deve proibir que os seres humanos se reconheçam; deve impedir que esse reconhecimento seja convertido em formas de privilégio, coerção ou outras formas de violência. A diferença, aqui, é importante: uma coisa é regular o poder; outra, muito sombria, é suspeitar da humanidade.
Por isso, a pergunta é que tipo de alma social uma instituição cultiva. Quando o afeto é vigiado e a rivalidade é premiada, forma-se um típico ambiente onde cada pessoa aprende a sobreviver contra as outras, não com as outras. Nesse mundo, o discurso de ódio nem precisa ser declarado: basta organizar a vida de modo que ninguém possa confiar em ninguém.
Talvez uma das barbáries contemporâneas centrais não seja a ausência de regras, mas a centralidade de regras que administram e até censuram a proximidade ao passo em que deixam a frieza governar.