OPINIÃO

A Copa do Mundo como propaganda eleitoral

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista e articulista do JC
| Tempo de leitura: 3 min

A Copa do Mundo de Futebol historicamente sempre foi considerada um importante ativo eleitoral pelos marqueteiros. Benito Mussolini se utilizou da Copa da Itália, em 1934, para alardear a eugenia fascista. Tratava-se de uma pseudociência destinada à seleção de característica genéticas consideradas "superiores", para criar uma super raça. Desde então os governos se utilizam da comoção gerada pelo esporte para dominar a atenção pública, promover identidade nacional e obter dividendos eleitorais.

No governo Emílio Garrastazu Médici (1970), a seleção canarinha conquistou o "Tri", no México, com Pelé, Tostão, Jairzinho, Rivelino, Gerson e companhia. A ditadura militar apropriou-se da vitória para promover o ufanismo, mascarar a repressão e legitimar o governo em tempos de "Brasil, Ame-o ou Deixe-o". Apesar do país viver os seus "anos de chumbo", com censura total à imprensa, aos professores e até às artes, vivíamos o "Milagre Econômico" de Delfim Netto e Roberto Campos. Tínhamos um PIB médio de mais de 11%, de dar inveja aos chineses de hoje. O Produto Interno Bruto refere-se ao fluxo de produção anual. Não indica a qualidade de vida, a desigualdade social, já que não mostra como a renda é distribuída entre a população. Havia, sim, pleno emprego, mas nada que justificasse o uso liberal da tortura e as mais graves violações dos direitos humanos da nossa história.

"Pra frente Brasil - setenta milhões em ação, para frente Brasil, salve a seleção" - dizia a marchinha. Hoje somos 213 milhões e os problemas econômicos continuam. O grande censor de agora é o Supremo Tribunal Federal.

O técnico da seleção brasileira, à época, era o jornalista João Saldanha, abertamente um militante comunista. Negou-se a atender um pedido do presidente Médici que sugeria a convocação de Dadá Maravilha, centroavante do Atlético Mineiro e o quarto artilheiro do nosso futebol, com 926 gols marcados. "O Médici escala o Ministério e eu escalo a seleção" - respondeu Saldanha. Foi demitido e Zagallo chamado para sucedê-lo e assim conquistar o tricampeonato. Diplomático, Zagallo convocou Dadá Maravilha que não jogou sequer um minuto na campanha do México.

Nem só de demagogia política está afeito o futebol. Em 1969, o Santos de Pelé fez um amistoso na África, em Benin, país envolvido numa sangrenta guerra civil. Os ibso e os hansa, etnias em conflito armado, rapidinho concordaram com um cessar-fogo para que todos pudessem assistir em paz ao jogo no Estádio de Cotunu, o maior do Benin. No desfile em carro aberto pelas ruas centrais, a multidão era tão delirante que o Rei do Futebol teve que ser substituído por um sósia, por segurança.

Estraga festa é o Trump. Péssimo anfitrião. O presidente dos Estados Unidos criou problemas com vistos, aproveitou o evento para perseguir imigrantes e intensificar sua cruel política de deportação. Esquece Donald Trump que ele próprio é filho de uma imigrante escocesa que se casou nos EUA com um imigrante alemão. Melania, esposa de Trump, nasceu na Eslovênia e imigrou para os Estados Unidos onde foi modelo. Recentemente Trump foi derrotado na Suprema Corte quando tentava vedar o direito de filhos de imigrantes nascidos nos EUA se tornarem cidadãos americanos.

Aqui no Brasil, a direita e a esquerda se digladiam para vincular a camisa amarela apostando no discurso patriótico. Os bolsonaristas chegaram primeiro, mas o lulismo busca formas de romper essa relação com o uso das cores da bandeira nacional em sua campanha.

Flávio Bolsonaro, senador pré-candidato à Presidência da República, comemorou a convocação de Neymar, declaradamente bolsonarista. Lula, para desdenhar, disse que o camisa 10 é o "primeiro convocado home office do mundo", mencionado em post nas redes sociais. Neymar está se recuperando de uma lesão na panturrilha. Jogou 21 minutos contra o Haiti mas precisa aprimorar condicionamento físico e ganhar ritmo de jogo.

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