OPINIÃO

Candidato mal-acabado não ganha eleição

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista e articulista do JC
| Tempo de leitura: 3 min

O laboratório de neuropolítica da Universidade de Illinois, tem mais de uma centena de pesquisas sobre campanhas eleitorais. Uma das conclusões: candidato feio não tem chances de se eleger. Só se for um palhaço, ou um rinoceronte. Aí, já é birra do eleitorado.

Hoje, a visão do eleitor sobre o conteúdo estético do postulante a um cargo público é determinante no processo de escolha, embora não seja o único. Boa parte do que fica no córtex visual das pessoas diz respeito à aparência. Em "Storia de La Bruteza" (História da Feiura), Umberto Eco escreve que na arte e na filosofia, a feiura revela aspectos profundos da condição humana. Ironicamente, uma pintura bem executada do Inferno pode ser mais fascinante que uma Vênus mal desenhada. Para Eco a beleza é chata; a feiura "um banquete interminável de formas de se manifestar". A frase é densa e complexa. Simplificava Vinicius de Moraes que "beleza é fundamental". E pedia perdão às feias.

Uma vez perguntaram ao marqueteiro João Santana, como ele lidava com candidatos mal-acabados. Respondeu que procurava torna-los bonitos. Lula, na primeira eleição, foi enviado a um dentista famoso do Rio de Janeiro, que acertou o seu teclado desconjuntado e amarelado. Com a cara lavada deixou de ser o "sapo barbudo", como Brizola o apelidou. Dilma Rousseff não era um padrão de beleza. Também nunca foi horrorosa na aparência - só na gestão do país. Um momento importante da candidatura Dilma foi o efeito Kamura, famoso cabeleireiro e maquiador de São Paulo. O japonês transformou-a ao combinar uma nova maquiagem com nova sobrancelha e novo corte de cabelo. Na reeleição ficou mais fácil porque ela teve o José Serra como adversário. Criaram aqueles terninhos de mangas curtas e calças compridas, que se tornaram modelitos oficiais. Uma vez eleita, o gabinete da Presidenta fez um contrato com o cabeleireiro: R$ 5 mil cada penteada. Um jatinho do governo ia buscar Kamura em São Paulo, três vezes por semana, e o levava de volta. As primeiras damas fazem igual. Não sabemos a que preço porque os gastos com o cartão corporativo da Presidência são mantidos em segredo.

O jornalista bauruense Kleber Santos, autor do livro "O lado oculto do voto", concorda que o "figurino" do candidato é importante, mas será de pouca utilidade se não for emoldurado por uma postura confiante. "O corpo nunca atua sozinho: ele faz parte da cena" - observa.

A neuropolítica é a favor da "propaganda negativa". Os estudiosos da área acham que meter o pau no adversário surte efeito. Principalmente quando tem forte teor emocional. Leva as pessoas à reflexão e a se informarem mais. Kleber também concorda - "A neurociência mostra que emoções negativas geram memórias mais vívidas e duradouras".

Só que do outro lado também vem chumbo. É preciso se precaver contra a munição do adversário. Os sentimentos negativos mais associados às campanhas são raiva, medo, tristeza e decepção. As emoções positivas são entusiasmo, orgulho, alegria e esperança. Toda estratégia de campanha deve incluir o emocional.

Candidato é um termo vindo do latim "candidus", branco como a neve, alvo, brilhante. Na antiga Roma o candidato a um cargo eletivo fazia campanha vestido com uma toga branca, o que simboliza idoneidade, pureza e honradez. Qualidades que ficaram perdidas no tempo.

Em meio a mais uma campanha eleitoral, uma das táticas para aparentar candura é aparecer ao lado da esposa e dos filhos, símbolo do marido e pai. No corpo a corpo o candidato adora pegar criancinhas no colo e sapecar beijos nas bochechas rosadas. Se for um nenê negro, mostra que não é racista. Se for filho de pobre, melhor ainda. Abraçar pessoas sem discriminá-las, indica ausência de preconceito.

Se essas artimanhas e manhas não conseguirem ludibriar a boa-fé do eleitor, fique contente. Sinal que o brasileiro está evoluindo politicamente, a ponto de não se deixar enganar.

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