A miséria — Há quem confunda liberdade com ausência de raízes. Não pertence a nada, não quer se comprometer com nada, mas curiosamente despreza quem crê, milita, estuda ou serve a uma vocação. Às vezes, entende como lucidez de conteúdo aquilo que é apenas medo de assumir uma forma.
O excesso — Há também quem transforme identidade em prisão. Encontra uma tradição, uma causa ou uma profissão e passa a estranhamente vigiar a porta, como se pertencer fosse excluir os outros. Mas essa identidade que precisa humilhar para existir revela mais insegurança do que propriamente liberdade, força ou coragem.
Nosso tempo oscila entre dois perigos: o indivíduo líquido, que não sabe dizer “sou”, e novos tribalismos rígidos, que repetem “nós contra eles”. Entre a dispersão e o fanatismo, falta-nos identidade com responsabilidade.
Há um meio-termo ético entre a interpretação mais relativista do pós-modernismo atual e a leitura mais absolutista moderna: um pertencimento crítico e autocrítico.
Por isso a melhor imagem ainda é a árvore: tem raiz, forma e permanência, mas oferece sombra e frutos. Assim pode ser a identidade humana historicamente madura: firme sem ser fanática e autoritária, aberta sem ser vazia, suicida ou niilista.