OPINIÃO

O misterioso falsificador de figurinhas

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista
| Tempo de leitura: 3 min

O que nasceu para ser uma diversão para crianças, envolve pessoas de todas as idades e sexos. E custa um bom dinheiro. A febre das figurinhas já tomou conta das bancas, das escolas, dos supermercados e mesas de troca em todo Brasil. O mercado de figurinhas e álbuns é uma tradição consolidada desde 1919 - dizem os entendidos.

Lembro-me de quando criança meu pai comprava figurinhas de jogadores de futebol. Vinham embrulhadas em balas que eram desprezadas. O doce, mesmo, era colecionar as estampas. Meu pai não me deixava colá-las no álbum, "para não ficarem tortas". Com muito custo me permitia abrir as balas, "com cuidado para não rasgar". Elas vinham amassadas, o que demandava pegar o ferro de engomar de mamãe para que as estampas ficassem lisas e com melhor aspecto. A cada página completada era como se fosse um gol.

Um dos destaques era Leonidas da Silva, jogador do São Paulo FC que já tinha sido ídolo da seleção brasileira da Copa do Mundo de 1938. Ele inventou o "gol de bicicleta", aquele que com uma pedalada no ar o jogador consegue, de costas, dar um bate-pronto na bola que vem alta. A Lacta fez marketing com o apelido de Leônidas - "Diamante Negro". Deu nome à barra de chocolate que existe até hoje. As figurinhas mais difíceis eram as "carimbadas", as que vinham com uma obliteração em relevo. Muito raras, custavam caro nas feiras de troca. Uma lei obrigou em 1967 que todas as figurinhas de um álbum fossem impressas na mesma quantidade.

O jornalista Marcelo Duarte escreveu um livro sobre o caráter afetivo e a importância dessas figurinhas, principalmente as relacionadas com as Copas do Mundo. São documentos históricos capazes de revelar costumes, os caminhos da fama, estilos gráficos e até transformações sociais de cada período.

À medida em que o país foi se industrializando, com a melhoria do poder aquisitivo da população, as figurinhas também foram sofisticadas. "Cada envelope traz um mistério - pode ser um jogador do seu time, um ídolo ou aquela peça que falta para completar a página. Completar o álbum é uma experiência maravilhosa" - diz Marcelo Duarte.

A febre de colecionar - conta a história - tomou impulso com o chiclete Ping Pong nos anos 1980, tornando-se fenômeno de pai para filho. Naquela época não existiam direitos autorais. Agora a Fifa é dona de tudo, licencia as gráficas que queiram imprimir as fotos dos jogadores, fica com a parte do leão é paga alguma coisa de direito de imagem para os craques. Aqui no Brasil a Panini, empresa italiana, é a licenciada Fifa. São 80 milhões de figurinhas impressas por dia.

No meu tempo de criança a gente jogava "bafo". Nos pontos de troca a molecada cuspia na mão em concha. Aquele que conseguisse emborcar as figurinhas ficava com elas.

O que era uma empreitada de crianças, hoje é mais uma demonstração da força da cultura pop. Até um filme entra em cartaz - "O Gênio do Crime", do diretor Lipe Binder. O enredo foi extraído de um clássico da literatura infantojuvenil escrito há 40 anos por João Carlos Marinho. A trama, atualizada para 2026, gira em torno da falsificação de figurinhas douradas do álbum da Copa. A de Vinicius Junior é a mais difícil de todas. Foram mais de seis meses de negociação com o Real Madrid para liberar o uso da imagem de Vinicius na película. Na trama do filme, encontrar a figurinha do craque dá direito a uma viagem para a final da Copa do Mundo. Os ingressos mais baratos para essa final em julho custam a partir de R$ 30 mil. Isto é real. Como na ficção, a editora iria à falência com tantos prêmios. Jovens detetives circulam pela cidade de São Paulo para descobrir a identidade do misterioso falsário.

Falsificar figurinha ou fazê-las virar meme hoje é fácil, com a IA. A foto de Federico Valverde, do Real Madrid, recentemente envolvido em uma briga de socos com o colega Tchouaméni, apareceu nas redes sociais com curativos na cara e sem dentes na frente. Futebol é alegria, é criatividade, é improviso.

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