OPINIÃO

O que é ser mulher de verdade?

Por Zarcillo barbosa | O autor é jornalista e articulista do JC
| Tempo de leitura: 3 min

A deputada transexual Erika Hilton (Psol-SP), eleita para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara Federal, destampou uma grande polêmica em todo o país. Em todas as mídias ocorrem debates sobre a "ausência de legitimidade democrática" da sua eleição. Muitos acham que o posto deveria ser entregue "a uma mulher de verdade", como disse o comentarista Ratinho. A oposição na Câmara ainda alega irregularidade na votação que a escolheu por 10 votos favoráveis e 12 em branco.

Em protesto, a deputada estadual Fabiana Bolsonaro (PL), travestiu-se como uma pessoa negra (black face) e gritou da tribuna da Assembleia de S. Paulo: "Pronto, sou negra". Claramente a parlamentar defende o essencialismo que define o que é ser mulher, pelo sexo biológico. Sob a mesma regra, negra é quem tem a característica fenotípica da pele escura, comum na descendência africana. A parlamentar não toca na questão dos papeis e lugares atribuídos às mulheres. Curiosamente, quando Fabiana se candidatou, declarou-se "parda" no formulário do TRE.

A frase de Simone de Beauvoir lembra que a condição feminina é uma posição social em permanente disputa. A principal ideia da primeira feminista do mundo moderno é que a feminilidade não é um destino, mas uma construção social e cultural, resumida na célebre frase "Não se nasce mulher, torna-se mulher" ("O Segundo Sexo", 1949). Acredita-se que a existência precede a essência; as mulheres são livres para criar suas próprias identidades desafiando papeis do gênero imposto. Beauvoir morreu em 1986.Em sua época não se falava na diversidade de hoje em orientações sexuais englobando lésbicas, gays, bi, trans/travestis e . Mas, Beauvoir já defendia que o inconformado com o gênero biológico deixe o armário para assumir a identidade que o faça feliz.

O Radfem - feminismo radical que exclui mulheres trans do movimento feminista, defende que mulher é definida estritamente pelo sexo biológico designado ao nascer. Esse radicalismo choca-se com outro radicalismo, que considera a postura adversária de "transfóbica" porque exclui, desumaniza e nega identidade de gênero de pessoas trans. Os opositores da deputada Erika Hilton defendem que a comissão da Câmara é mesmo das mulheres de verdade, daquelas que entendem a natureza das mulheres e os desafios biológicos.

A eleita quer o colegiado como um espaço que acolha a diversidade de todas as mulheres: mães solo, mulheres trabalhadoras, negras, indígenas e das que lutam pela sobrevivência. Regimentalmente, a Comissão de Defesa da Mulher analisa projetos, fiscaliza programas e debate políticas públicas voltadas à proteção, igualdade de gênero e combate à violência doméstica. Foca na saúde, mercado de trabalho e na participação política feminina.

Hilton chama os oponentes de "imbeCIS". Só para lembrar, CIS vem de "cisgênero", que significa "do mesmo lado" - ou seja, a identidade de gênero alinhada com o sexo atribuído ao nascer. O homem trans já passa por um processo de afirmação de gênero para viver sua identidade. Entender e respeitar essas diferenças é essencial para a construção de uma sociedade mais justa e acolhedora.

O escritor Oscar Wilde foi condenado a dois anos de prisão e trabalhos forçados, por amar a um homem. Alfred Douglas, seu jovem amante, encerra o poema "Two Loves" com o famoso verso "o amor que não ousa dizer seu nome". O mundo gira. O Direito brasileiro permite que homem se apresente como mulher e a lei pune quem quiser tirar-lhe a dignidade. Dia desses, o amor de Juquinha e Lorena, na novela "Três Graças" (Globo), não apenas ousa dizer seu nome como gera identificação e atrai o interesse das massas com clássica cena de amor.

Seu Antônio e a dona Maria, sentados no sofá aceitam a trama das lésbicas rejeitadas e não mudam de canal. Lorena e Juquinha decidem morar juntas e ter um cantinho para chamar de seu.

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