No Dia Mundial da Agricultura, mais do que celebrar conquistas, é preciso fazer uma reflexão honesta sobre os caminhos que estamos trilhando — e, principalmente, sobre os obstáculos que ainda insistem em limitar o pleno potencial do campo brasileiro. Do ponto de vista de quem está na lida diária, produzindo, investindo e assumindo riscos, o cenário é claro: avançamos muito dentro da porteira, mas seguimos travados fora dela.
A agricultura brasileira é, hoje, uma das mais tecnológicas do mundo. Uma simples semente de soja carrega anos de pesquisa científica, inovação genética e desenvolvimento tecnológico. Mesmo plantas consideradas invasoras, como o joio, já são objeto de estudos avançados. O campo deixou de ser apenas força física e passou a ser inteligência aplicada, gestão de dados e precisão. Ainda assim, o setor não recebe a devida atenção quando o assunto é política pública voltada à alta tecnologia. Falta reconhecimento prático de que o agro moderno exige instrumentos compatíveis com seu nível de complexidade.
Essa desconexão se reflete, por exemplo, na ausência de um Plano Safra de longo prazo. O modelo atual, um remendo renovado ano a ano, não oferece previsibilidade para o produtor rural, que precisa planejar investimentos de médio e longo prazo. Sem segurança, o risco aumenta — e o custo também. Soma-se a isso a necessidade urgente de taxas de juros mais condizentes com a realidade da atividade agropecuária. Produzir alimentos não pode ser tratado como uma operação financeira de alto risco; a segurança alimentar é uma atividade estratégica para o país e para o mundo.
Outro gargalo histórico, e ainda não resolvido, é a infraestrutura. A dependência quase exclusiva do transporte rodoviário encarece o escoamento da produção e reduz a competitividade brasileira no mercado global. Investir em ferrovias não é apenas uma alternativa — é uma necessidade. Da mesma forma, a falta de estrutura adequada de armazenamento obriga o produtor a comercializar sua produção em momentos desfavoráveis, pressionando ainda mais suas margens.
E se os desafios estruturais já não fossem suficientes, o produtor rural enfrenta, cada vez mais, os impactos das mudanças climáticas. Secas prolongadas, chuvas intensas e eventos extremos se tornaram parte da rotina no campo. No entanto, o Brasil ainda carece de um sistema de seguro rural robusto, acessível e eficiente. Na prática, o risco climático continua sendo quase integralmente absorvido por quem produz, o que compromete a sustentabilidade da atividade. Ao contrário dos Estados Unidos, onde quase 90% da produção é coberta, no Brasil esse índice chega, quando muito, próximo a 10%.
O resultado é um cenário preocupante: mesmo com ganhos expressivos de produtividade e adoção de tecnologia de ponta, garantidos por uma resiliência sem tamanho do produtor, ele vê sua margem de lucratividade encolher — e, em muitos casos, se tornar negativa. Isso evidencia que o problema não está na capacidade de produção, mas no ambiente em que ela está inserida. Falta uma política estruturada, contínua e integrada que dê suporte real ao setor.
Neste Dia da Agricultura, o que os mais de 15 milhões de produtores rurais pedem não é privilégio, mas coerência. É o reconhecimento de que o agro é parte essencial da economia brasileira e precisa ser tratado como tal. É necessário construir um verdadeiro Projeto Brasil para o campo, com planejamento de longo prazo, crédito adequado, seguro rural eficiente e investimentos consistentes em infraestrutura e inovação.
O produtor já faz a sua parte — e faz bem, garantindo a sustentabilidade e preservação do meio ambiente, cuidadndo da água e da terra como nenhum outro – afinal este é seu maior patrimônio. O Brasil, agora, precisa fazer a sua. Celebrar a agricultura é importante, mas garantir condições para que ela continue sendo um motor de desenvolvimento é fundamental. Sem isso, o risco é transformar uma potência produtiva em um gigante limitado pelas próprias omissões. Neste dia simbólico, fica o recado de quem vive da terra: o futuro da agricultura depende das decisões que tomarmos agora.