No 1º Domingo da Quaresma, a Palavra de Deus nos conduz às origens da nossa história e ao coração do combate espiritual que atravessa a humanidade. No Livro do Gênesis, ouvimos que "o Senhor Deus formou o homem do pó da terra". (Gn 2,7) e o colocou no jardim do Éden. Ali, porém, diante da sedução da serpente, o ser humano cede à tentação: "colheu um fruto, comeu e deu também ao marido". (Gn 3,6). O pecado nasce da desobediência e da pretensão de "ser como Deus". (Gn 3,5). São Paulo, na Carta aos Romanos, aprofunda essa realidade: "O pecado entrou no mundo por um só homem" (Rm 5,12), mas proclama a esperança: "pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça". (Rm 5,19). Se por Adão veio a queda, por Cristo vem a salvação. É nesse horizonte que contemplamos o Evangelho das tentações de Jesus no deserto (Mt 4,1-11). Jesus, o novo Adão, vence onde o primeiro falhou.
A Igreja nos propõe três práticas quaresmais - oração, jejum e esmola - como caminho concreto para participar dessa vitória.
1. Jejum: vencer as tentações
Após quarenta dias de jejum, o tentador provoca: "Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães!" (Mt 4,3). Jesus responde: "Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus" (Mt 4,4). Aqui está a tentação do imediatismo, de reduzir a vida às necessidades materiais. O jejum nos educa a ordenar os desejos. Ele não é desprezo do alimento, mas exercício de liberdade. Num mundo que estimula o consumo constante, jejuar é dizer que Deus é o nosso verdadeiro sustento. Um exemplo simples: alguém que decide, durante a Quaresma, renunciar a algo que aprecia — um doce, o excesso de redes sociais, uma comodidade — experimenta um saudável domínio de si. Esse pequeno sacrifício fortalece a vontade e prepara o coração para resistir a tentações maiores. O jejum nos ensina que não somos escravos do que sentimos ou desejamos.
2. Oração: não tentar a Deus
Na segunda tentação, o diabo leva Jesus ao ponto mais alto do Templo e diz: "Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo" (Mt 4,6). Jesus responde: "Também está escrito: 'Não tentarás o Senhor teu Deus!'" (Mt 4,7). Aqui está a tentação de instrumentalizar Deus, de exigir provas, de querer que Ele se submeta às nossas vontades. A verdadeira oração não manipula Deus; ela nos transforma. Não coloca Deus a nosso serviço, mas nos torna obedientes à sua vontade. Rezar é confiar, mesmo quando não entendemos. Um exemplo concreto: diante de uma dificuldade familiar ou profissional, em vez de reclamar ou exigir soluções imediatas, a pessoa se coloca em oração diária, pedindo luz e força para agir com sabedoria. A oração não elimina magicamente os problemas, mas muda o coração de quem reza.
3. Esmola: adorar somente a Deus
Na terceira tentação, o diabo mostra a Jesus "todos os reinos do mundo e sua glória" (Mt 4,8) e promete: "Eu te darei tudo isso, se te ajoelhares diante de mim" (Mt 4,9). Jesus responde com firmeza: "Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele prestarás culto" (Mt 4,10). Aqui está a tentação do poder, da glória e da riqueza a qualquer preço. A esmola é o antídoto contra essa sedução. Quando partilhamos, reconhecemos que os bens não são absolutos e que só Deus é digno de adoração. Tenho contato com a pobreza e sei que a esmola não é apenas dar o que sobra, mas reconhecer a dignidade do outro. Um exemplo concreto: uma família que decide destinar parte do que economizou no jejum para ajudar uma instituição de caridade ou uma pessoa necessitada vive uma conversão real. Ao partilhar, aprende que a verdadeira riqueza é amar.
Oração, jejum e esmola não são práticas isoladas, mas um caminho de transformação. Que nesta Quaresma possamos, com humildade, rezar com o salmista: "Dai-me de novo a alegria de ser salvo" (Sl 50[51],14). E que, fortalecidos pelo exemplo de Cristo no deserto, cheguemos à Páscoa renovados na fé, firmes na esperança e generosos na caridade.