As audiências de instrução do processo relativo aos desvios milionários que teriam ocorrido na Apae nos últimos cinco anos, crime apurado pelo Setor Especializado de Combate aos Crimes de Corrupção, Crime Organizado e Lavagem de Dinheiro (Seccold) da Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic), tiveram início nesta sexta-feira (17), no Fórum de Bauru, com a oitiva de duas testemunhas indicadas pela acusação. No total, 13 pessoas são rés na ação, incluindo o ex-presidente da entidade Roberto Franceschetti Filho, condenado pelo assassinato da ex-secretária executiva da Apae Claudia Lobo, e familiares dela.
Prestaram depoimento ao juiz Jair Antonio Pena Júnior o delegado Cledson do Nascimento, titular da 3.ª Delegacia de Homicídios (3.ª DH) da Deic, que descobriu os desvios durante as investigações do sumiço de Claudia Lobo, e uma funcionária de uma empresa que prestou serviços para a entidade.
Nascimento falou sobre o primeiro depoimento prestado por Franceschetti, quando ele alegou que retiravam dinheiro da conta da Apae para repassar aos funcionários a título de adiantamento, repondo os valores ao final do ano financeiro, na tentativa de justificar uma eventual quebra de sigilo.
O delegado citou ainda que o ex-presidente não soube explicar porque o dinheiro ia para a conta pessoal dele, falou sobre planilha encontrada no computador de Claudia, inconsistências em depoimentos e qual seria, segundo funcionários, a função de Letícia Lobo, filha da ex-secretária, na Apae.
Já o delegado Glaucio Stocco, titular do Seccold, que presidiu o inquérito dos desvios na entidade, apresentou atestado médico e não compareceu à audiência. Com a ausência de Stocco, a audiência foi encerrada pelo juiz e terá continuidade na próxima sexta-feira (24), quando ele deverá ser ouvido.
A reportagem apurou que somente a partir do depoimento dele é que demais testemunhas e réus poderão ser ouvidos. A reportagem também apurou que Franceschetti deve ficar em Bauru até o dia 29 de outubro, mas essa confirmação só ocorrerá no próximo dia 23, quinta-feira anterior à audiência.
Relembre o caso
Investigações conduzidas pelo Seccold apontaram que, em cinco anos, ao menos R$ 7,5 milhões foram desviados dos cofres da Apae Bauru. Desse total, R$ 5,8 milhões teriam sido retirados pelo ex-presidente da entidade, Roberto Franceschetti Filho, e R$ 1,8 milhão por Claudia Lobo.
Além do ex-presidente, outras 12 pessoas são rés no processo, incluindo familiares de Claudia, entre eles o ex-marido e a filha dela, supostamente beneficiados pelos desvios. Eles são acusados de organização criminosa, peculato e lavagem de dinheiro.
De acordo com o Seccold, os crimes envolveram superfaturamento de contratos, emissão de notas frias, pagamento de salários a funcionários fantasmas, empréstimos de dinheiro da entidade a terceiros com cobrança de juros, uso de conta paralela para movimentação de recursos e transferências lançadas na contabilidade como bonificações ou “adiantamentos a fornecedores”.
No último dia 28 de agosto, o juiz Jair Antonio Pena Júnior devolveu à Polícia Civil o processo que apura o rombo milionário na Apae. O magistrado pontuou que os autos referentes ao suposto “crime do colarinho branco”, como é popularmente conhecido o delito, “carecem tanto de lógica quanto de clareza”.
O juiz descreveu ainda a apuração como uma “fishing expedition” (pesca probatória), ou seja, uma busca especulativa por provas. Na avaliação dele, foi apresentado “um emaranhado de documentos” que não permitia considerar as investigações concluídas.
Alisson Caridi, advogado de Letícia Lobo, chegou a entrar na Justiça por discordar da realização das audiências antes da conclusão do inquérito, mas o pedido foi negado. O caso está em segredo de Justiça.