OPINIÃO

Verissimo

Por Marcondes Serotini Filho | O autor é ortodontista, cronista e membro da Academia Bauruense de Letras
| Tempo de leitura: 3 min

Pelos idos de 1982, ganhei de presente de uma arquiteta gaúcha, uma senhora muito distinta, um livro de Luís Fernando Veríssimo chamado "A Mesa Voadora". Era uma deliciosa viagem ao redor do mundo aos mais diferentes ambientes gastronômicos frequentados pelo autor. Notei, depois de muito tempo, os pendores maragatos e ximangos da arquiteta, que me presenteou com um livro de seu conterrâneo. Bem coisa de gaúcho mesmo.

Agora, com o passamento de LFV, me vem à mente a alegria que tive ao ler o livro, caminho literário sem volta, que me levou a ler O analista de Bagé, A Velhinha de Taubaté e a garimpar aqui e ali, crônicas deste que considero o mais inspirado cronista brasileiro.

Com o advento da internet, muita coisa ali publicada tem sua autoria remetida a escritores famosos e LFV é um dos mais citados. É muito fácil descobrir se aquele texto é dele ou não: não cabe na pena do filho de Érico Veríssimo palavrões, piadas fáceis e chavões. Sua verve é reta, inspirada, inovadora e deveras inteligente. Um gênio da raça.

Engraçado que até os 30 anos ele não tinha escrito nada. Eu também. Porque será? Porém, assim como ele, li o que tinha de ser lido até aquela idade, quando acredito passamos a transbordar e a vontade de escrever nos domina com a força de uma pata de elefante.

Não há nada parecido entre uma pessoa que escreve por diletantismo e um escritor que vive de sua arte. Minto. Há, sim, um único ponto em comum entre esses dois seres: a essência. O resto é diametralmente oposto e diferente.

Por isso que não é necessária a convivência, o conhecer um autor. Ele tem milhões de leitores e isto é humanamente impossível, haja vista as noites de autógrafos que desafiam a saúde e a coluna vertebral do escritor por horas. De tirar foto, tenho duas com Mário Prata e outra com Carlos Heitor Cony. Porém, o escritor não pode ter muito dessas amizades com leitores. Existe até a piada antítese dessa verdade, quando um escritor iniciante é reconhecido na rua por um leitor, que lhe diz: " Comprei seu livro!". No que o escritor novato responde: "Ah, foi você"?!

Hoje percebo o que Veríssimo me causou: ele me explicou o que é ser cronista, como definiu Carlos Drummond de Andrade; cronista é o editor sem terno e gravata, o escritor sem contrato e sem tema definido. Depois desse aprendizado e a liberdade que me foi concedida por esses mestres, a feitura de textos inspirados no dia a dia se tornou uma rotina deliciosa e obrigatória para este que vos escreve. E a coincidência sobre o livro A Mesa Voadora não para por aqui.

O prefácio do livro é do jornalista Mino Carta, escritor também que fundou nada menos que 4 revistas, entre elas a Veja. O texto de Mino Carta, com fina ironia, relata a sua revolta com as 47 crônicas de LFV sobre gastronomia, comida boa, vinhos, restaurantes franceses e sua relação com os cardápios e maitres desses bistrôs. Reclamava Mino: "Eu pensava que para escrever essas crônicas inteligentes e tão bem sacadas, Veríssimo se fechava num cubículo, com dores de cabeça, tomando chá com bolacha de água e sal, no sofrimento que acompanharia uma produção literária de tamanha qualidade. Pois com inveja percebo que, ao contrário, Luis é degustador de saladas de lagostas e vinhos Bordeaux, alterando com a conivência do Chef alguns ingredientes do prato solicitado. Inacreditável, geme Mino"!

LFV morreu num dia e no dia seguinte se foi Mino Carta. Concordo com Luis Fernando Veríssimo quando perguntado sobre o que ele achava da morte: "Sou contra, Cada vez mais!"

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