Tutorial da subjetividade nas crianças
Quando pensamos em redes sociais, o que parece ser uma despretensiosa atitude com relação aos filhos, além de dizer muito sobre os pais, pode significar uma falta de conhecimento no assunto.
Postar fotos dos filhos é o grande assunto do momento, vários vídeos e reportagens foram feitas, mas falar sobre, ainda causa um certo incômodo porque muitas vezes, no desejo dos pais, mostrar a foto dos filhos é um grande deleite.
Vou me atentar a falar da subjetividade das crianças, mas quando vejo adultos postando fotos de seus filhos sem filtro, tenho a sensação que desconhecem o mal que tal atitude pode representar aos seus.
A subjetividade na infância é a formação da identidade na criança que, através de suas experiências, sentimentos e interações sociais, ocorre dentro de um processo marcado pela linguagem, criatividade, imaginação e vivência de um mundo em constante transformação que a ensina e a molda o tempo todo, fazendo-a capaz de se relacionar criticamente com a realidade quando os pais a ensinam e a preservam.
Quando desde cedo experienciam a exposição, no futuro entenderão tais atitudes como parte de sua rotina, sem compreensão dos reais perigos das redes sociais. Isto acontece porque foram ensinadas a se portarem assim, e enquanto o equívoco dos pais impera, são os filhos que pagam a conta.
Além de ser um desconhecimento do direito à privacidade, enquanto crianças não têm a capacidade de escolher, muito menos aparato psíquico para compreender a situação, cabe aos pais como adultos responsáveis educar seus filhos tendo em mente que estes meios de comunicação servem para vender e apresentar produtos, ou seja, nos apresentamos não apenas para quem conhecemos, mas para todas as categorias e tipos de pessoas, inclusive as más intencionadas.
O que para alguns pode parecer só um vídeo fofo, além de os expor ensinando os filhos a gostar desta exposição que normatiza a perda de comunicação consigo próprio, no futuro, eles terão dificuldade em manter um espaço entre o público e o privado. Tudo nas redes sociais é sobre se mostrar, nada sobre aprendizado de si.
Então, quando colocamos fotos pessoais, estamos colocando-as num lugar desconhecido e perverso que não tem apenas as pessoas que queremos ter por perto.
Se você quer ensinar seu filho a ser responsável, se você quer ensinar seu filho a se alimentar corretamente, se você não quer que ele beba ou fume, dê exemplos. Ao contrário, estaremos apresentando-os para um amigo invisível e, ao mesmo tempo, ensinando-os que podemos confiar, afinal, quem são eles e como separar o bem do mal se tudo é para todos?
Em defesa das crianças, precisamos entender que elas são seres com particularidades e especificidades individuais da idade, e fundamentalmente, sua subjetividade é sempre ativa à medida que ela brinca, aprende e absorve dos pais e educadores seus exemplos, sendo eles bons ou maus.
É na relação com o mundo que tudo acontece, representado pelos adultos que estão educando e, às vezes sem saber, ensinam o que menos querem.
No aprendizado, as relações acontecem direta ou indiretamente independentemente do desejo dos pais, e no campo da subjetividade, como o espaço entre os tempos está cada vez mais curto, se não nos atentarmos para isto, no futuro, nossos filhos serão fruto deste encurtamento, porque, quando agimos com impulsividade e descontrole dos próprios desejos, além deles abstraírem nossos exemplos, enquanto extensão do desejo e aprendizado deles, será impossível estabelecer um controle.
O que temos à nossa disposição como educadores é o quanto pensamos e nos comprometemos com o que queremos para eles, tentando dar exemplos e aprendendo a postergar a impulsividade que ainda nem nomeamos em nós mesmos.
A nossa relação com o corpo e mente do ponto de vista da subjetividade caminha para um achatamento que, se não fizermos nada por isto, serão os nossos filhos, netos, sobrinhos que pagarão a conta pela nossa falta de conhecimento no assunto, e no pior cenário, será uma cisão para a educação dos filhos.
Além dos danos subjetivos, enquanto os pais postam fotos de seus filhos contando o quanto eles sabem, tem gente com más intenções observando quem eles são, onde moram, onde estudam. Na emergência de se mostrarem, falam mais do que deveriam deles mesmos.
O desejo narcísico se refere a um investimento libidinal no próprio eu que é fundamental para a construção da subjetividade, mas à medida que crescemos, deveria ser transformada pela capacidade de direcionar o amor para os outros, portanto, perdendo a necessidade de se mostrar porque, quando compreendemos a existência do outro, agimos a favor, e não contra eles e nós mesmos.
Música "Saiba", com Adriana Partimpim.