Um dos grandes desafios enfrentados por empresas de diversos segmentos, como o comércio varejista, a construção civil e a indústria, o 'apagão' de mão de obra também afeta o setor supermercadista, que iniciou uma articulação junto ao governo federal para a criação do modelo de contratação por hora trabalhada. A proposta, que depende de mudanças na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), busca flexibilizar a jornada e ampliar as opções de emprego em um ramo que, somente na região de Bauru, acumula cerca de 1.400 vagas não preenchidas. No Estado, o número ultrapassa 34 mil postos ociosos.
Em coletiva de imprensa de divulgação da Apas Experience Bauru 2025, evento realizado na última quinta-feira (21), o presidente da Associação Paulista de Supermercados (Apas), Erlon Ortega, afirmou que a mudança poderia atrair jovens, estudantes, pessoas em transição de carreira e trabalhadores que buscam renda extra.
"O horista teria todos os direitos garantidos pela CLT na proporção das horas trabalhadas, com flexibilidade para escolher quando trabalhar", pontua ele, que já encontrou-se com o vice-presidente Geraldo Alckmin para discutir o assunto. De acordo com Ortega, a proposta é distinta do trabalho intermitente, que exige aviso prévio de 72 horas ao convocado. A entidade também sustenta que a rigidez da lei atual estimula a informalidade e dificulta a contratação de quem não se adapta à jornada de 44 horas semanais.
Geração Z
Já os trabalhadores, especialmente os pertencentes à geração Z, destacam, entre os motivos do desinteresse pelas vagas, a remuneração pouco competitiva, escalas que incluem fins de semana e feriados e ausência de planos de carreira. Estes jovens nascidos entre 1997 e 2010 representarão 25% da força de trabalho no mundo até o fim de 2025, proporção que, em cinco anos, deverá chegar a 30%, segundo estudo da empresa norte-americana de consultoria McKinsey.
Na região de Bauru, o setor supermercadista emprega 30 mil pessoas em 1.005 lojas instaladas em 58 municípios. Para este ano, a projeção da Apas é de que o faturamento do segmento nestas cidades cresça 5,7%. A expansão, contudo, poderia ser maior se as vagas ociosas tivessem sido preenchidas, conforme avalia o economista-chefe da Apas, Felipe Queiroz. "O cenário atual também prejudica a economia do Estado, porque mais pessoas empregadas significariam mais renda circulando na economia", explica.
Enquanto aguarda a mudança legislativa, a Apas tem atuado em algumas frentes. Uma delas é a parceria com o governo estadual por meio do programa Caminho da Capacitação, que oferece cursos profissionalizantes a pessoas em situação de vulnerabilidade social. Nos eventos de entrega de diplomas, as vagas disponíveis são apresentadas, conforme a região onde os formandos residem.
Outras estratégias
O mapeamento dos postos ociosos por empresa, cidade e função também é compartilhado com prefeituras e o governo do Estado para facilitar a intermediação. As maiores carências estão nas funções desempenhadas na área de vendas das lojas, como operador de caixa, açougueiro, padeiro, repositor.
"A Apas também vem trabalhando muito forte, por meio da Escola Apas, na formação das pessoas, porque temos dificuldade em mão de obra, sobretudo nas atividades técnicas, como açougueiro e padeiro", explica o gestor de operações de loja da entidade, Luiz Ferreira.
Outra iniciativa é o investimento em autosserviço, como caixas com autoatendimento. Embora seja uma tendência mundial, Ortega destaca que o contato com o cliente continuará sendo parte essencial do negócio.
A Apas também relata experiências positivas com a contratação de trabalhadores acima de 60 anos, que voltaram ao mercado para complementar a renda. A convivência entre gerações, segundo o presidente, melhora o ambiente de trabalho e fortalece a qualidade do atendimento.
No entanto, para o diretor-geral da associação, Carlos Correa, a flexibilização da jornada seria a medida mais eficaz para superar o chamado "apagão" de mão de obra. "O País já amadureceu o suficiente para essa discussão e o trabalhador precisa ter liberdade para fazer suas escolhas", defende.
Construção civil transforma desafio de contratação em oportunidade
Pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), divulgada em dezembro de 2024, revelou que 82% das empresas da construção civil têm dificuldade de contratar novos trabalhadores, principalmente aqueles com mão de obra qualificada. Profissões como eletricista, mestre de obras, encanador e instalador figuram entre as mais demandadas e, ao mesmo tempo, mais escassas no mercado de trabalho do setor.
"Estamos sentindo isso principalmente entre os trabalhadores mais jovens e que estão no início da carreira", afirma Ricardo Aragão Rocha Faria, arquiteto e diretor da Construtora Dinâmica.
Visando suprir esse déficit, a empresa aderiu ao projeto "Senai-SP e Indústria da Construção: qualificação e produtividade em foco" a fim de facilitar o acesso à capacitação de seus funcionários por meio de cursos e treinamentos gratuitos.
Em Bauru, aulas de instalação de tubulação a gás, instalação de drywall, hidráulica e elétrica, entre outras, poderão ser ministradas nos canteiros de obras da construtora. "Incentivar o acesso aos estudos garante que o profissional esteja qualificado para a função e é uma oportunidade de evoluir e crescer dentro da própria empresa", explica Ademir Redondo, diretor da Escola Senai de Bauru.
"A capacitação eleva a capacidade técnica desses profissionais, impactando diretamente na qualidade das obras e no desenvolvimento do setor", ressalta Ricardo. Outras construtoras parceiras também poderão aproveitar os cursos, voltados para as principais necessidades da empresa.