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Especialistas debatem o envelhecimento

Por Luciano Ferreira |
| Tempo de leitura: 4 min
Até o final deste século, 40% da população brasileira serão de idosos - chegando a 37% já em 2070
Até o final deste século, 40% da população brasileira serão de idosos - chegando a 37% já em 2070

O envelhecimento da população brasileira é uma realidade já há algumas décadas. Dados do último censo do IBGE mostram que o Brasil registrou uma alta expressiva (57,4%) no número de idosos entre 2010 e 2022.

Para Claudia Mello, secretária Estadual de Saúde do Rio de Janeiro, é fundamental que a população, de modo geral, entenda a importância de proporcionar a todos um envelhecimento saudável, com cuidados de saúde adequados, o que resultará em uma maior autonomia para os idosos.

Isso é fundamental, uma vez que, até o final deste século, 40% da população brasileira serão de idosos (chegando a 37% já em 2070), frente aos 4% registrados em meados do século passado.

Para Sandra Rabello, coordenadora de extensão do Núcleo de Envelhecimento Humano da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é importante trabalhar a chamada intergeracionalidade, que é a maior interação entre todas as faixas etárias, de modo que os agora jovens ouçam e aprendam com os mais velhos, que têm, em sua longa trajetória de vida, muito o que repassar às gerações seguintes.

Sandra também alerta que é fundamental lidar com o processo de envelhecimento de maneira mais ampla, trabalhando desde o início com históricos familiares, dado que muitos problemas de saúde que normalmente acometem os mais velhos poderiam ter sido identificados anos antes.

"O envelhecimento é biopsicossocial. Então, todo mundo está envolvido. Não é só o geriatra, é gerontologia, a ciência do envelhecimento. Então, (precisa envolver) todas as especialidades, em qualquer área, não só da saúde, mas também na área jurídica, na área social, na arquitetura, no direito", diz.

Desafios no acesso à saúde

O médico geriatra Alexandre Kalache afirma que um dos principais fatores que dificultam envelhecer com saúde é a falta de profissionais na geriatria. De acordo com ele, a especialidade vem sendo pouco seguida na formação de novos médicos, que optam por outras áreas. Como resultado, já há uma defasagem na relação entre o número de geriatras e o de pacientes, o que, com o passar dos anos e o aumento da população idosa, deve se agravar ainda mais. Além do preconceito, segundo os participantes, há o entendimento que a especialidade não oferece, via de regra, um retorno financeiro equivalente ao de algumas outras especialidades.

"Daqui a dez anos a gente formou, vamos dizer, cinco geriatras. Mas é só enxugar gelo, porque nesse mesmo período o déficit terá crescido de 28 para 37 médicos. Eu não quero necessariamente mais geriatras. Eu quero que todos os profissionais de saúde aprendam mais sobre envelhecimento", explica o especialista.

Para Fátima Henriette, presidente da Comissão Especial de Atendimento à Pessoa Idosa na OAB/RJ, no caso de mulheres, há ainda outros desafios. Essa população é o maior alvo de violências, como constatado pelo Painel de Violência do Ministério Público do Rio de Janeiro, com familiares sendo os maiores autores desse crime, ocorrido geralmente dentro da própria casa do idoso. Ela explica que, por isso, é importante também que haja uma integração adequada com o núcleo familiar.

A importância da presença da família junto dos idosos foi um ponto de unanimidade entre os debatedores. Para Elisa Macedo, coordenadora do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça da Pessoa Idosa do MP-RJ, há uma cultura social que dificulta a inserção de idosos na comunidade. No entanto, cuidar do idoso não deve ser responsabilidade exclusiva dos parentes. "Pensar sobre o envelhecimento e sobre as políticas públicas é importante para que a gente rompa efetivamente com o familismo, porque a responsabilidade do cuidado não é única e exclusiva da família", explica Simone Tourino, superintendente de Políticas para Pessoa Idosa da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos.

Economia prateada

Na segunda mesa de debates do evento, Lícia Mattesco destaca que o Estado do Rio é um dos que já enfrentam de maneira mais intensa os desafios do envelhecimento, uma vez que é o segundo em todo o país com o maior percentual dessa população, com mais de 3 milhões de pessoas. No entanto, ela alerta que 976 mil deles foram identificados como expostos a algum tipo de vulnerabilidade, como deficiência física, pobreza ou até mesmo situação de rua, com grande parte deles nem sequer tendo conseguido concluir o ensino médio.

O doutor em Demografia José Eustáquio lembra que, ao final deste século, a população com mais de 50 anos deve ser a maioria da população brasileira. Por isso, ele destaca que é importante pensar na chamada "economia prateada", que envolve não só o consumo de produtos por essa faixa etária, mas também a questão da produção, enquanto força de trabalho, dessa camada.

"O aumento da esperança de vida é uma grande conquista. A expectativa de vida ao nascer no mundo era de 25 anos, mas triplicou no último século. E você tem a expectativa de vida saudável, que é um pouco menor, em torno de 70 anos. Essa diferença entre expectativa geral e expectativa saudável é o que a gente tem que encurtar, que é a compressão da morbidade. Ou seja, diminuir as doenças, fazer um envelhecimento ativo, para que a expectativa de vida saudável esteja mais perto da expectativa de vida geral", explica Eustáquio.

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