OPINIÃO

O que fazer com a raiva de todo dia

Por Roberto Magalhães |
| Tempo de leitura: 2 min
O autor é professor de redação e autor de obras didáticas e ficcionais

Reconheço, sou esquentado, fervo a vinte graus. Chuto gavetas, dou murro na mesa, já joguei macarronada no chão. Tá louco, idiota, vai quebrar a casa inteira? É a minha mulher berrando de raiva da minha raiva? No último prato que eu ameacei, ela ergueu uma enorme panela de pressão no ar. Repensei imediatamente a minha raiva. Agora, só me enraiveço trancado no banheiro. Chuto a privada, mordo a toalha, xingo-me no espelho com os piores palavrões.

Mas adianta alguma coisa? Nadinha. É o que diz Sophie Kjaervik, professora da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos. Pode ser bom no momento, mas, no longo prazo, deixa a pessoa cada vez mais agressiva. Faz sentido. Raiva com raiva, dentro da lógica matemática, só duplica a raiva, bolas!

Em São Paulo, desde 2021, no bairro do Tatuapé, funciona a "Rage Rom" ou "Sala da Raiva", como é mais conhecida. A entrada custa R$25 e dá direito a machado, taco de baseball, picareta, martelo e outros brinquedinhos assim...

Pagando os vintão, o cara pode sair destruindo tudo o que encontrar pela frente: geladeiras, micro-ondas, televisão, vidraças, lustres... Mas cada coisa destruída é coisa consumida, vai pra conta do nervosinho. Quebrar uma garrafa é baratinho, apenas R$1, mas uma geladeira completa não se quebra por menos de R$220. Nunca fui lá. Raiva eu tenho mas grana não. Continuo no banheiro. A "sala da raiva" é hoje um sucesso. Cerca de 300 pessoas a visitam mensalmente. Um detalhe interessante: 90% dos frequentadores são mulheres. Sorte dos maridos que poderão reencontrá-las em casa mais calminhas. Credo!

Se raiva não se combate com raiva, esses irritadinhos estão jogando dinheiro fora. O desafio, então, é descobrir o quê, além dos chás e dos faixas pretas, pode acalmar. Não faltam receitas, que de médico e de louco todo mundo tem bastante. "Conte até duzentos, cara!" Dizem que funciona. Se não funcionar, ao menos retarda a merda que a gente vai fazer. "Vai pescar, cara!" Ótima sugestão, desde que o rio seja piscoso, senão emputece ainda mais. "Vai pentear macacos!"

Isso é besteira, coisa ridícula, melhor ignorar. Agora, iogar, cantar, dançar, assoviar e namorar, além de rimar, ajudam o saco esvaziar. Gente feliz vive assim. Não sai mordendo os outros por aí.

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