OPINIÃO

Maternidade e sofrimento

Por Zarcillo Barbosa |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é jornalista e articulista do JC

O jovem indiano decidiu processar os pais por ter sido concebido sem o seu consentimento. A mãe alega que aceitaria a culpa caso ele explicasse como poderia ter sido contatado para expressar seu desejo de vir ao mundo ou não, mas diz que admira a preocupação do filho com o sofrimento humano.

Cresce no mundo o movimento político chamado "antinatalista", liderado por alguns pensadores e filósofos que defendem ter sido melhor não nascer, para se poupar de tanto sofrimento em troca de alguns momentos de prazer.

O antinatalismo vai contra um profundo impulso biológico de ter filhos. Segundo essa minoria, mas que cresce dada a quantidade de desgraças que existem, melhor mesmo é ser abortado.

Bobagem atribuir a responsabilidade pelos seus infortúnios só ao outro que o trouxe ao mundo. Em grande parte da vida, o indivíduo atende à demanda dos seus pais, mas existe um momento em que você se apropria. Isso tem um preço, cada um tem que tomar suas próprias atitudes, fazer suas escolhas.

Parte do sofrimento da existência cabe às nossas escolhas e posturas, uma vez que o nascimento já é um fato. Porém, esperar que a balança sempre pese para alegrias, felicidade e prazer é complicado.

Fico pensando se pôr filho no mundo não é ainda pior do que nascer. "Filho é bom, mas dura muito" - dizia o poeta Vinicius de Moraes. É uma preocupação para a vida inteira. Imagine o sofrimento das mães de 15 mil crianças e adolescentes que já morreram pelos efeitos das bombas lançadas na Faixa de Gaza. Pobre daquelas que sequer conheceram os filhos, mortas por infecções pós-parto, em meio aos escombros dos hospitais. As guerras são sempre contra as crianças, por serem maioria e mais vulneráveis à desnutrição, à desidratação. Na Ucrânia, outras 500 meninas e meninos perderam a vida. Aquelas que escaparam feridas, como em qualquer guerra, levarão décadas para se livrarem dos seus traumas.

Sinta o drama de uma mãe que esperou horas por socorro, no telhado da casa em Canoas, Rio Grande do Sul. Com os quatro filhos agarrados ao seu colo, no momento do embarque Agnes, de sete meses, gêmea de Ágatha, escapa da mão da mulher e mergulha na água lamacenta, à noite, sem luz. Asseguraram-lhe que outro barco havia resgatado a criança. Há dois dias procura a filha em abrigos e hospitais. Até onde acompanhei, nenhuma notícia para aplacar tanta angústia e sofrimento.

Sofre a mãe do filho que se descobriu homossexual. Mesmo sem nenhuma cobrança dos pais, o rapaz se automutila, começou a usar drogas e tentou suicídio. A adolescência é um momento de tensão na relação mães e filhos. São anos de conflitos, brigas, perdas e frustrações dentro de casa. Existem aqueles que tiveram relações conturbadas com a mãe e não têm boas relações. Ao revés, há os que perderam a mãe e guardam luto para sempre.

De sacrifícios e entrega aos filhos, há muitos exemplos. O casal gay queria um filho e a mãe de um deles se dispôs a gerar o bebê. Um quis ser pai, o outro, mãe, e a mãe, avó.

Fiquei sabendo da mãe que vive com a filha no McDonald´s, do Leblon, no Rio. Desde que foi despejada por falta de pagamento, alojou-se na hamburgueria. Quando fecha, fica na calçada. De manhã, a loja abre e a mãe emboca com sua cria. Pede batatinha frita com a esmola que consegue. A juíza disse que, enquanto estiver consumindo, ninguém a tira de lá.

A rede social conta a trajetória do rapaz que só tem o padre como pai e mãe. Permaneceu no orfanato sem que nenhum casal se interessasse em adotá-lo. Quando completou 18 aos, foi posto para fora, compulsoriamente, conforme o regulamento. O padre foi o único que se dispôs a leva-lo para casa. Vivem felizes.

No Dia das Mães, as campanhas publicitárias adocicadas ilustram o quanto a realidade das mães está distante da "família margarina". As vendas apelam para os sentimentos de amor e gratidão, e o mundo é cheio de maldade e ilusão.

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