ENTREVISTA

Archimedes Azevedo Raia Jr.; Mobilidade é seu fio condutor

Por Tisa Moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 5 min
Tisa Moraes
Archimedes Azevedo Raia Jr. é articulista do JC há 30 anos
Archimedes Azevedo Raia Jr. é articulista do JC há 30 anos

'Na minha vida, as coisas aconteceram com muito esforço e empenho, mas com naturalidade'. É assim, com leveza no tom de voz, que o respeitado especialista em segurança viária Archimedes Azevedo Raia Jr. define sua trajetória de mais de 30 anos dedicados a estudar, ensinar e melhorar a engenharia de trânsito das cidades.

Ainda criança, ele aprendeu a fazer pequenos reparos em casa após a morte precoce do pai, o que o inspirou a cursar engenharia mecânica. Já formado, foi diretor de Abastecimento e de Trânsito e Transportes na Emdurb, chegando a assumir a presidência da empresa por um breve período.

Nela, conheceu professores que o motivaram a enveredar para a docência. Archimedes tornou-se mestre e doutor em engenharia de transportes pela USP de São Carlos e, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), construiu uma sólida trajetória de 26 anos dedicados ao ensino, pesquisa e extensão. Foi, ainda, professor da FIB, em Bauru, por três anos.

Mesmo já aposentado, o engenheiro de 69 anos mantém-se em atividade, seja na Assenag, onde atua há 14 anos como diretor - 12 deles na área de Mobilidade e Transportes, ou escrevendo artigos e livros. Ele é, inclusive, articulista do JC há 30 anos, além de ter sido escolhido o Profissional do Ano pela Assenag em 2019.

Nascido em Bauru, Archimedes é casado com Lucia Lia, pai de Guilherme e Henrique e avô de Luiza. Nesta entrevista, ele relembra desafios que se impôs ao longo da carreira e aqueles que a vida trouxe na esfera pessoal, incluindo três batalhas contra o câncer.

JC - Como surgiu o interesse pela engenharia?

Archimedes - Meu pai morreu aos 54 anos. Ele era agropecuarista, tinha acabado de vender a fazenda e emprestou o dinheiro para algumas pessoas. Não sabíamos quem elas eram e nos vimos sem recursos, quando minha mãe teve que começar a trabalhar. Eu tinha 11 anos, era muito companheiro do meu pai e pensava em ser engenheiro agrônomo. Na época, meus dois irmãos mais velhos não moravam mais com a gente e aprendi a consertar chuveiro, torneira. E acabei fazendo engenharia mecânica em Bauru, na antiga Fundação (hoje Unesp). Trabalhei de 1979 ao meio de 1984 na Dedini, em Piracicaba, e resolvi voltar para Bauru.

JC - Veio para trabalhar com o que?

Archimedes - Tive um comércio de produtos médicos hospitalares, mas acabou não indo adiante pela concorrência de grandes fornecedores. A convite do Isaias Daibem, à época chefe de gabinete do Tuga Angerami, fui comandar a diretoria de Abastecimento da Emdurb, em 1986. O presidente era o Eduardo Bottacin, cedido pela Cesp, mas a companhia o chamou de volta. Eu estava na Emdurb há seis meses, implantando diversas ações, e acabei sendo chamado a assumir a presidência, onde fiquei por três meses, até outro nome ser definido. Um ano e meio depois, assumi a diretoria de Trânsito e Transportes da empresa.

JC - Foi onde descobriu sua inclinação para a engenharia de trânsito?

Archimedes - Eu já gostava do urbano, da cidade. Durante a faculdade, trabalhei na prefeitura, recebendo bolsa e confeccionava mapas de valor venal, calculava impostos. Aquele ambiente me atraiu e acho que eu era um autodidata, porque, mesmo inexperiente, fazia aquele trabalho com certa tranquilidade. Eu sempre gostei do que fiz e, por isso, sempre me dediquei.

JC - E como ocorreu a migração para a docência?

Archimedes - Na década de 1990, tinha uma equipe de professores da USP que desenvolveu, junto com a Emdurb, um projeto de racionalização de trânsito de Bauru. Criamos corredores de transporte Norte-Sul, Leste-Oeste e também construímos o Calçadão da Batista de Carvalho. E esta equipe me convidou a fazer mestrado em engenharia de transportes na USP de São Carlos. Neste meio tempo, o Tidei foi eleito prefeito e a expectativa era de que os diretores da Emdurb fossem demitidos. Mas, antes que isso ocorresse, soube que a UFSCar estava procurando um professor com meu perfil. Eu tinha uma semana para estudar e passei no concurso em primeiro lugar.

JC - Apesar de não ter sido planejada, a docência teve grande relevância na sua trajetória, não?

Archimedes - Eu tinha dado aulas por quatro anos e meio em um colégio técnico em Piracicaba, quando estava na Dedini, mas nunca pensei em ser professor. Gostei tanto de dar aulas na UFSCar, que fui criando meus desafios: entrei como professor auxiliar, me tornei assistente quando concluí o mestrado, passei para professor associado quando terminei o doutorado, até me tornar professor titular, o último nível da carreira. Fiquei 26 anos na UFSCar, até me aposentar, e, nesse tempo, além de ensino, me dediquei muito à pesquisa e extensão. Fiz trabalhos para várias prefeituras envolvendo os alunos, dei e fiz muitos cursos, palestras, escrevi livros, artigos. Quando fiz o concurso para titular, escrevi uma resenha sobre mim e deu um calhamaço de mais de 200 páginas. Na minha vida, as coisas aconteceram com muito esforço e empenho, mas com naturalidade.

JC - E na vida pessoal, também enfrentou desafios?

Archimedes - Sim. Entre os mais difíceis, estão três batalhas contra o câncer: de próstata, de pele e de estômago. O último eu descobri depois que tive uma queda de pressão e cuspi sangue antes de sair para trabalhar na UFSCar. Deitei e liguei para a Lucia Lia, que sempre me deu retaguarda e cuidou da família em Bauru enquanto estive em São Carlos. Ela me buscou, eu tinha melhorado e viemos para Bauru. Fomos na Unimed, fiz endoscopia no dia seguinte e recebi o diagnóstico. Precisei tirar 100% do estômago e voltei a trabalhar dois meses depois. Deus me guiou neste processo.

JC - E o que gosta de fazer nas horas vagas?

Archimedes - Assistir a partidas de futebol e de tênis e cultivar bonsai e orquídeas, que são plantas difíceis de cuidar, porque dão muita praga. E gosto muito de escrever. Agora, com mais tempo livre, estou trabalhando em dois livros solo.

O que diz o engenheiro:

'Eu sempre gostei do que fiz e, por isso, sempre me dediquei'

'Quando fiz o concurso para professor titular, escrevi uma resenha sobre minha vida e deu um calhamaço de mais de 200 páginas'

'Precisei tirar 100% do estômago e voltei a trabalhar dois meses depois. Deus me guiou neste processo'

Archimedes com a nora Ana Flávia, o filho Henrique, a esposa Lucia e o filho Guilherme
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Archimedes com os irmãos Maria de Fátima, Myriam e José Manuel
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Archimedes com a esposa Lucia e a neta Luiza
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Archimedes foi premiado pelo Programa Volvo de Segurança no Trânsito por projeto que reduziu acidentes de trânsito na UFSCar
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