OPINIÃO

Falta rigor em uma 'perna' do tripé macroeconômico

Por Reinaldo Cafeo |
| Tempo de leitura: 3 min
O autor é diretor regional da Ordem dos Economistas do Brasil

Alguns indicadores econômicos positivos, como queda do desemprego, cotação do dólar, alta na bolsa de valores, entre outros, podem levar os agentes econômicos e parte da imprensa a entenderem que o país trilha um caminho econômico seguro e que haverá sustentação do crescimento econômico ao longo do governo Lula. Alerto: falta rigor em uma "perna" no tripé macroeconômico e isso pode colocar em risco o equilíbrio macroeconômico.

O tripé composto por metas de inflação, câmbio flexível e forte ajuste fiscal tem atualmente nas duas primeiras o rigor necessário.

Coincidentemente, são as duas metas sob responsabilidade do Banco Central brasileiro, que é autônomo e independente, sendo criticado injustamente pelos principais dirigentes do atual governo, incluindo o presidente Lula, que amplia o ataque, atingindo a pessoa física do presidente da autarquia, Roberto Campos Neto.

O país observa um processo de desinflação, tanto que o IPCA, inflação oficial, quando anualizada, está próxima de 3%, dentro da meta fixada em 3.25% ao ano. Não obstante as metas de inflação olharem para o futuro, tudo aponta que no ano fechado de 2023 a inflação ficará comportada. No caso da taxa de câmbio, com o mecanismo da oferta e procura por divisas a cotação vem caindo devido ao enfraquecimento do dólar em nível mundial e ainda especulações de investidores estrangeiros no tocante ao comportamento futuro do dólar por aqui.

O problema está no controle das contas públicas, portanto, a "perna" do rigor fiscal não está sendo cumprida, não obstante o déficit público deste ano estar previsto no orçamento da União. Vale lembrar que o Brasil fechou 2022, governo anterior, com superávit primário (receita menos despesas sem computar o serviço da dívida pública) de R$ 54 bilhões. Já o primeiro semestre deste ano, governo Lula, o país fechou com déficit primário de R$ 42,5 bilhões. Se considerarmos a variação no período saindo de sobras primárias de R$ 54 bilhões para déficit primário de R$ 42,5 bi, tem-se R$ 96,5 bilhões, ou seja, se fosse uma empresa, deixou de ter um lucro para ter prejuízo.

Tudo bem que em breve haverá um novo Arcabouço Fiscal e a Reforma Tributária, contudo, o foco de ambas é na arrecadação e não em cortes de despesas, ou seja, baixo rigor fiscal como preconiza o conceito do tripé macroeconômico. Há dúvidas no tocante a efetividade de ambas. Talvez isso explique em parte a posição "comprada" em dólar dos investidores estrangeiros. O Brasil observa marca histórica de investidores com esse comportamento: US$ 48,8 bilhões. Estar "comprado" em dólares é esperar que a moeda norte-americana se valorize frente ao Real (R$), portanto, há uma aposta futura de que a "lua de mel" do câmbio acabe, voltando a subir.

E, por fim, um importante ingrediente: em 2024 o Banco Central terá quatro dirigentes indicados pelo governo Bolsonaro e quatro indicados pelo governo Lula. Mesmo com o voto de minerva do presidente da autarquia, a pressão interna do próprio Banco Central poderá afetar as duas "pernas" do tripé macroeconômico que estão sob total controle atualmente. Aí teríamos a "tempestade perfeita", afetando o desempenho econômico do país.

No governo de Dilma Rousseff (PT), o abandono de parte do tripé macroeconômico levou o país a dois anos de recessão.

Fica o alerta.

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