CRIME

Violência doméstica: mulheres levam anos para se reconhecerem vítimas

Por Larissa Bastos | da Redação
| Tempo de leitura: 3 min
InfoJud
Quando mulher diz basta, em muitos casos, até a suposta 'rede de apoio' se afasta
Quando mulher diz basta, em muitos casos, até a suposta 'rede de apoio' se afasta

Com vários formatos e intensidades, a violência doméstica e familiar é algo que atinge milhões de mulheres todos os anos e, inclusive, motiva até crimes hediondos. No entanto, há um fenômeno preocupante que contribui para que algumas delas levem anos para se reconhecerem enquanto vítimas desse tipo de abuso: a naturalização da objetificação das mulheres (quando ela é reduzida a um objeto) nas relações, algo enraizado na sociedade. É o que aponta a professora doutora de Psicologia Social da Unesp Nilma Renildes da Silva, que trabalha com vítimas do crime há 15 anos.

A especialista explica que existem mecanismos históricos de contexto cultural machista e patriarcal que geram e mantêm desigualdades entre homens e mulheres, e alimentam um pacto de silêncio e conivência com estes delitos. "A mulher é ensinada a ver como natural um comportamento agressivo do homem e, por isso, não se entende vítima porque acha normal. Mas não é. E, inclusive, não é um problema para somente para ela lidar. Os homens também devem se perceber como algozes e mudar seu comportamento", declara. De acordo com Nilma, parte das vítimas pode levar cerca de sete anos para se reconhecer neste contexto.

A professora doutora ainda acrescenta que justamente por isso foram criadas leis para proteger as mulheres. De acordo com o artigo 5.º da Lei Maria da Penha, violência doméstica e familiar contra pessoas do sexo feminino é "qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial".

Inclusive, desde 2012, a legislação é passível de ser aplicada mesmo sem queixa direta da vítima, o que significa que qualquer pessoa pode fazer a denúncia contra o agressor, inclusive de forma anônima.

Nilma destaca que a naturalização do comportamento agressivo dos parceiros também influencia negativamente no processo de enfrentamento da situação pelas vítimas.

"Percebo que o conceito de rede de apoio é muito idealizado. Na prática, o que vemos são elas (as redes de apoio) se rompendo quando as mulheres denunciam e buscam ajuda. Justamente porque parentes e amigos têm a cultura enraizada de que é natural o homem oprimir. E aquela vítima se vê sozinha, geralmente com filhos e sem renda, o que aumenta a tendência dela voltar para a relação", observa.

Para se ter ideia, uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), feita em 2014, mostra que 63% dos entrevistados concordaram, total ou parcialmente, que "casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família". E 89% afirmaram que "a roupa suja deve ser lavada em casa", enquanto que 82% consideraram que "em briga de marido e mulher não se mete a colher".

Buscando justamente dar suporte a essas vítimas durante o enfrentamento da situação, o Centro de Psicologia Aplicada (CPA) da Unesp Bauru iniciou, em 2022, um grupo de reflexão, em parceria com a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) e o programa OAB Por Elas. O projeto é coordenado pela professora doutora Nilma Renildes da Silva.

"O objetivo é promover um espaço de escuta, partilha de vivências, assim como refletir sobre as diferentes opressões e violências sofridas, sobre o que é ser mulher e criar uma rede de apoio mútuo, em um ambiente seguro e de acolhimento", detalha a coordenadora, mencionando que participam vítimas que sofreram qualquer fase do chamado "ciclo de violência" (leia no quadro no final).

Atualmente, o grupo realiza três reuniões semanais, com capacidade para atender até dez mulheres em cada. As participantes devem ser encaminhadas pelos serviços de proteção, como DDM, OAB Por Elas ou por entidades de assistência social da prefeitura (Creas e Cras). Não é necessário já ter registrado boletim de ocorrência (BO) contra o agressor ou ter medida protetiva. Além disso, são fornecidos passes de ônibus gratuitos para garantir que essas vítimas tenham condições de chegar à Unesp.

A DDM fica na Praça Dom Pedro II, 2-70, Centro de Bauru. Já o OAB Por Elas está situado na avenida Nações Unidas, 30-30. O CPA fica no Câmpus da Unesp, na avenida Engenheiro Luiz Edmundo Carrijo Coube, 14-01.

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1 Comentários

  • Dorival Vieira 23/07/2023
    A Psicologia é Ciência. Se fundamenta na Evidência singular de Ser Humano. Bem como estar na execução da mesma. Em sua pluralidade. \" A Infância é fase mais importante para definição da Psique.\". Sendo o momento mais importante da existência do Ser. Acredito que a mesma como Ciência estar perto. Nesse momento significativo. Do desenvolvimento infantil. Principalmente com projetos para a Infância e Família. Inumeráveis são os caminhos para amenizar, evitar o Sofrimento feminino. Dorival Vieira Psicólogo