BAURU

Diretor de teatro, Paulo Neves viveu a dramaturgia de Zé Celso Martinez

Por André Fleury moraes | da Redação
| Tempo de leitura: 4 min
Larissa Bastos
O professor e artista Paulo Neves durante entrevista ao JC, nesta sexta-feira (7)
O professor e artista Paulo Neves durante entrevista ao JC, nesta sexta-feira (7)

Ímpar, singular, brilhante e extraordinário. Mas também rebelde, anarquista e transgressor. É assim que o jornalista, diretor de teatro e professor Paulo Neves define o gigante Zé Celso Martinez, um dos maiores - se não o maior - dramaturgos brasileiros, morto na quinta-feira (6), depois de não resistir aos ferimentos de um incêndio em seu apartamento.

Neves chegou a conhecer Zé Celso. Foi uma única ocasião, lembra o professor, mas o bastante para que o episódio jamais fosse esquecido. Aconteceu em São Paulo, no Teatro Oficina, nos idos de 1980. "Ele me tratou muito bem. Era como se fôssemos bons amigos", disse ao JC, nesta sexta-feira (7), em uma conversa que durou cerca de duas horas.

A admiração pelo diretor de teatro, no entanto, é mais antiga do que isso. Neves se formou em história na antiga Fafil, mas não atuou na área de imediato. Tornou-se assessor de imprensa da Sabesp assim que terminou a graduação. Foram anos difíceis, mas suficientes para ganhar experiência na área.

Era uma época, afinal, em que o tratamento de água não era tecnológico como hoje - e muito menos os métodos de captação. Em Presidente Prudente, por exemplo, a dificuldade de se obter recursos hídricos deixou a cidade 15 dias sem água em determinada ocasião. A população, enfurecida, queria invadir a estação regional da Sabesp. Coube a Neves apagar o incêndio.

"Foi uma cena terrível. Todos bravos, justificadamente, e eu tentava conversar com o pessoal. Mas havia muita gritaria e eu não conseguia falar. Até que a situação se acalmou", lembra. Neves, então, passou a ler a mensagem do superintendente. "Nenhuma cobrança será feita pelos próximos 90 dias", dizia o texto, que colocou fim àquela confusão.

Paulo deixaria a Sabesp em 1977 para se dedicar integralmente ao teatro, embora o fascínio pela dramaturgia nos palcos viesse da infância. Sua mãe era sócia de um grupo teatral e apresentou a área ao filho ainda cedo. A referência não é qualquer uma: Celina Lourdes Alves Neves, afinal, é o nome do Teatro Municipal de Bauru.

RODA VIVA

O ano de 1968 marcou a edição do Ato Institucional 5, que enrijeceu ainda mais a ditadura, e também a estreia da peça "Roda Viva", dirigida por Zé Celso, exibida no Teatro Oficina.

Entre uma interação e outra com o público, um dos artistas arremessou um objeto na plateia e acertou um homem de camisa branca, que deixou o teatro imediatamente. Não demoraria muito para que cerca de 25 pessoas, todas segurando um taco de beisebol, invadissem os corredores do Oficina.

Estava armada a arapuca: eram policiais e soldados, todos ligados à ditadura e integrantes do Comando de Caça aos Comunistas, o antigo e temido CCC. "Isso me marca até hoje. Eles entraram batendo na plateia, mas miravam principalmente os artistas. Eu vi Marília Pena sendo duramente espancada. Os outros, também", relatou Neves durante a conversa desta sexta.

A ditadura militar ainda imperava quando Neves deixou a Sabesp para se dedicar ao teatro. Tão artista como todos os outros, o professor tinha de enviar todas as suas peças autorais ao departamento de censura do governo federal. "Todas voltavam com um carimbo de veto", conta, sorrindo. "Era poesia, afinal, e falar de poesia no regime militar é uma afronta", prossegue.

Muito influenciado por Bertolt Brecht, Neves gostava mesmo era do teatro político. E registrou seu fascínio pela área em um livro de memórias lançado em 2021 pela editora Mireveja. O relato inclui, por exemplo, a invasão do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) no diretório acadêmico da Fafil, do qual foi presidente no final da década de 1960. "Soldados desceram de um jipe e arrebentaram tudo: livros, mesas e cadeiras", escreveu no livro de memórias.

A repressão era tamanha que Paulo se recorda exatamente do dia em que chegou a São Paulo para comprar jornais numa banca de sua preferência e não havia mais nada por ali. A banca havia sido alvo de uma explosão - uma técnica de repressão utilizada para intimidar a venda de jornais considerados subversivos ao regime, como Pasquim ou Movimento.

O regime se foi, o Brasil ganhou a Constituição Cidadã, e o professor inaugurou, em 1997, um curso de teatro em Bauru que duraria até a chegada da pandemia, quando as atividades foram suspensas. Ganhou homenagens como a "Mostra Paulo Neves", uma semana de espetáculo no teatro que leva o nome de sua mãe, e ainda tem saudades dos palcos.

Mas sentirá ainda mais falta de Zé Celso, de cuja morte se emociona ao falar. Para além das características que mencionou à reportagem no início, o professor ainda o definiu em uma segunda frase: generoso, irreverente e inovador, tudo o que dirigiu marcou a dramaturgia brasileira.

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