OPINIÃO

O rufar de muitos tambores

Por J.F. da Silva Lopes |
| Tempo de leitura: 2 min
O autor é advogado

As caixas de lenços de papel têm impecável lógica de funcionamento. Depois da dificuldade para tirar a primeira folha, as demais saem, uma a uma, com igual perfeição, bastando mínima habilidade. Entretanto, faltando habilidade, as folhas remontam e o manuseio imprestável prejudica o uso normal e lógico que norteou a concepção e uso desse popular produto.

Essa constatação num momento nacional de forte tensão política inspira esta abordagem diante da surpreendente novidade de instalação simultânea no Congresso Nacional de quatro Comissões Parlamentares (três na Câmara dos Deputados e uma mista envolvendo Câmara dos Deputados e Senado Federal) em contrariedade com a lógica organizada das caixas de lenços de papel e trazendo num quadro nacional tenso e, diante do acúmulo delas, risco de paralisação de outras atividades, de acirramento de ânimos, de dificuldades de acompanhamento e, até, prejuízo das investigações e imprestabilidade dos possíveis resultados.

As Comissões Parlamentares instaladas (sobre o vandalismo de 8 de janeiro, sobre manipulação de resultados esportivos, sobre invasões de áreas rurais e prédios urbanos e, finalmente, sobre inconsistência contábil do poderoso Grupo da Americanas) têm temáticas relevantes o que indica a extrema importância daquilo que venha a ser apurado e recomendado. Mas a fuga da boa e impecável lógica de funcionamento das caixas de lenços de papel num ambiente de tensão política fará com que simultaneamente venham a rufar quatro diferentes e acirrados tambores com diferentes sons que, no mínimo, atrapalharão acompanhamento e nossa capacidade de audição e de compreensão e, com certeza, dificultarão a exata percepção das investigações e dos respectivos resultados. Isto não é bom.

As Comissões Parlamentares em todos os níveis federativos (Federal, Estadual, Distrital e Municipal) têm legalmente amplos poderes investigativos (Constituição Federal, art. 58 § 3º) e despertam atenção e acompanhamento pela opinião pública, Quando bem conduzidas podem levar a constatações e esclarecimentos de altíssima relevância e significado político/administrativo. Todavia, no inusitado caso presente diante da tensão política agravada e com o simultâneo rufar de quatro tambores embaralhando sons constata-se risco elevado de níveis de dificuldades tanto para investigações como em relação aos acompanhamentos públicos o que, sem dúvida, pode atrapalhar trabalhos, conclusões, recomendações finais e repercussões.

Os riscos de desvios, embates desnecessários e de acirramento da temperatura política no correr dos quatro trabalhos são visíveis e perigosos. Indispensável que os parlamentares valorizem instrumento tão poderoso como é uma Comissão Parlamentar e atuem para servir a nação e favorecer cumprimento dos nobres fins do Estado brasileiro como assentado na Constituição Federal (art. 3º).

Essencial para reduzir e minimizar esses riscos será o comportamento individual de cada um dos parlamentares protagonistas nos trabalhos comissionais deles se exigindo que atuem com respeito e ética carregada de civilidade e lealdade para com as nossas instituições e valores republicanos.

Espera-se que assim seja para o bom êxito dos trabalhos e felicidade geral da nação.

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