ECONOMIA

Controle das contas públicas é a melhor defesa contra crise bancária

Por Alexa Salomão |
| Tempo de leitura: 5 min
Ricardo Borges/Folhapress
Entre as mais de 500 assinaturas, está a do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga
Entre as mais de 500 assinaturas, está a do ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga

O economista Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC), não vê risco de que as fragilidades que assombram instituições financeiras nos EUA e na União Europeia possam ser identificadas no sistema bancário brasileiro. "Uma contaminação vinda de fora não é o principal fator de risco aqui", diz ele. "Blindado nunca ninguém está. Mas não acredito que esse setor possa sucumbir numa crise bancária. Os bancos aqui no Brasil são mais capitalizados."

Fraga, no entanto, afirma que o ciclo econômico não é confortável no Brasil. Na sua avaliação, será mais fácil para o BC atuar nesse ambiente mais adverso, acompanhando uma eventual redução na taxa de juros, se o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) for mais ágil em apresentar definições para o que considera o cerne do problema no Brasil: a fragilidade fiscal.

Arminio reforça que apesar de as atenções terem se voltados para a elaboração de novas regras fiscais, as prioridades são os parâmetros de resultado primário e de gasto público para os próximos anos.

Já vínhamos sentido risco de crédito, veio perda de confiança e, na últimas semanas, bancos com problemas. Estamos diante de um risco de crises múltiplas?

Armínio Fraga - Sim, mas precisamos olhar a geografia da coisa. Lá fora, temos uma situação muito delicada, e os bancos centrais já avisaram que vão entrar com artilharia pesada. Em geral, isso pelo menos dá tempo. É preciso averiguar quanto se tem de alavancagem no sistema. A novidade do banco da Califórnia [o Silicon Valley Bank, que faliu] é que eles tinham uma posição enorme de descasamento de taxa. Ou seja, captavam depósito de curto prazo e aplicavam num prazo longo. Eles quebraram, pelo que se ouve, em função disso. Lá fora os bancos centrais vinham correndo atrás dos prejuízos com a inflação. Foi uma aposta que fizeram. Estavam com medo e, agora, vem a conta. O aperto no crédito é incluído nos cálculos dos bancos centrais. Sempre há o risco do que a gente pode chamar de dominância financeira, ou seja, o banco central afrouxar um pouco na inflação para não apertar demais no mundo do crédito. Esse é o estado das artes lá fora.

E no Brasil?

Armínio Fraga - Aqui é diferente. Também há uma questão inflacionária, e não é apenas um choque de oferta, e mesmo que fosse, o BC tem que, no mínimo, cuidar dos efeitos secundários do choque. No nosso caso, a maioria dos especialistas acha que tem também um elemento de demanda. Ao mesmo tempo, aqui também está no ar toda essa questão fiscal. Aqui, o que tenderia a acalmar as coisas seria justamente dar mais espaço ao BC para trabalhar e a única forma que existe para fazer isso é resolver o fiscal. É isso, ou teria algum impacto também no crédito. O BC mais livre, ou que não tenha de carregar um piano mais pesado do que deveria, pode trabalhar um pouco melhor o tema.

O CEO da BlackRock, Larry Fink, disse que parte do que vemos agora é fruto do excesso de dinheiro dos últimos anos. O sr. concorda que o ambiente fez com que as instituições fossem permissivas e lenientes com as regras financeiras?

Arminio Fraga - Com toda certeza. Isso é algo recorrente na história financeira dos povos e parte de um ciclo natural que atraiu vários estudiosos, como Irving Fisher, Hyman Minsky e o próprio Ben Bernanke. O assunto é conhecido, mas as soluções têm se mostrado difíceis, como estamos vendo. Acho que é a hora de rever regras. Muitas coisas entendidas como dogmas podem ser revistas, como a questão do prazo. Banco capta curto e empresta longo, mas isso não pode ser interpretado com toda essa flexibilidade. O sistema precisa repensar isso. Os bancos, eles próprios, já estão sujeitos a várias obrigações em termos da liquidez. Normalmente, não carregam nos balanços créditos muitos longos. Você não vê financiamento a infraestrutura no balanço dos bancos. Isso vai para investidores com passivos adequados, como companhias de seguro e fundos de pensão. Não é que nada foi feito. Porém, o fato é que vivemos essa crise com sintomas muito parecidos com as de outras. Existe corrida a banco desde que existe banco. Isso não é uma novidade em si. O que é incrível é que não tenha sido bem administrado.

O sr. mencionou que não tem temor de crise bancária no Brasil. Imagino que seja pelo tamanho e solidez das instituições, e até pela concentração. Os bancos digitais, as fintechs, estão blindados?

Arminio Fraga - Blindado nunca ninguém está. Mas não acredito que esse setor possa sucumbir numa crise bancária. Os bancos aqui no Brasil são mais capitalizados. Tem-se a impressão que grandes bobeiras como a que vimos nos Estados Unidos não ocorrem aqui. Essa é a minha avaliação.

E qual é o cenário para as empresas de forma geral?

Arminio Fraga - O que se fala é que a restrição de crédito está forte e algumas empresas, no limite. Essa é uma outra história. A economia, além do choque de oferta, aqueceu. O BC apertou. Várias empresas dependem de financiamento para capital de giro, e elas estão sofrendo muito. Algumas estão até se mostrando inviáveis. Essa é uma questão do ciclo econômico típico e não de uma grande crise sistêmica.

Qual a sua perspectiva para a reunião do Copom?

Arminio Fraga - Eu fujo dessa pergunta abertamente, até porque sou gestor. Eu acredito que o método de trabalho do BC é bom. Vai acertando. Pode errar aqui e ali, mas o Copom se reúne com frequência e, já já eles corrigem, se for o caso. O sistema é bom. Ele tem dificuldades quando o fiscal não é bom. Aí complica.

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